sábado, 16 de agosto de 2008

ZÉ DO CAIXÃO E ÜBERMENSCH, É POSSÍVEL?

Iniciamos esta postagem com o email enviado (em 12/08/2008) pelo amigo administrador de empresas Isael Moises, de Araxá-MG:

"Caro Prof. Tiago Menta,

Sou formando em Administração de Empresas em Araxá_MG, tenho grande interesse em Ciências Humanas, particularmente em Sociologia e quão grata foi minha surpresa ao encontrar um material tão bem montado em seus vídeos (Capitalismo, Feudalismo), em seguida acessei seu blog e fiquei ainda mais impressionado com a clareza, objetividade, isenção e didática com que trata temas tão massivamente manipulados como Socialismo, Marxismo, Desenvolvimento e afins. Gostaria, se possível, de solicitar-lhe um grande auxílio, o de indicar-me livros introdutórios às 3 Grandes Áreas das Ciências Sociais: a Sociologia, a Economia e a Antropologia. Já li algumas obras de Darcy Ribeiro, Caio Prado Jr, Celso Furtado, Bóris Fausto, Emília Viotti, Edgard Carone, Roberto Campos, Sérgio Buarque de Holanda e alguns trechos de Hobsbawn, Friedman. No entanto, ainda não aventurei-me pelos clássicos mais densos (como Platão,Tocqueville, Weber, Marx, Hobbes, Keynes e outros), por falta de um conhecimento básico necessário para compreender e assimilá-los, onde creio que um roteiro de leitura acompanhado de uma lista de livros introdutórios e de comentários à tais obras, poderiam ajudar-me.

Lí seu artigo sobre o candidato Obama, e não contenho-me de perguntá-lo: até onde é possível a implementação de grandes reformas na sociedade norte-americana por um político, dentro de um sistema onde o Partido Democrata e o Conservador, a serviço da indústria do petróleo, do complexo industrial-bélico e das grandes corporações representam apenas variações de uma única Companhia? Qual seria a margem de manobra de tal presidente? (ou minha visão estaria um pouco distorcida pela leitura de Noam Chomsky, Gore Vidal e de alguns documentários de Michael Moore?) Em tempo, ao concluir o curso de Adm., pretendo fazer pós em Sociologia, vc indicaria alguma instituição/curso em específico? Agradeceria imensamente, se dispendesse parte de seu tempo em responder-me.

Atentamente, Isael Moisés"

Reproduzo aqui a minha resposta ao amigo Isael Moises:

"Antes de mais nada, fico agradecido pelas palavras Isael, isso só me motiva a continuar no mesmo caminho.
Primeiro, um conselho: não tenha medo de ler os clássicos, achando que somente possa fazer tal leitura se estiver com uma obra introdutória ao lado, pois isso pode direcionar a sua leitura e nem sempre é positivo fazer assim. Encare os clássicos de mente aberta, mesmo sabendo que na primeira leitura talvez não retire toda a riqueza que a obra mostra, mas isso vem com outras leituras e com o tempo, não se preocupe.
Citou Platão - leia a Apologia de Sócrates, e em seguida A República. Também Max Weber - leia A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Karl Marx e Engels leia O Manifesto do Partido Comunista, A Ideologia Alemã, Manuscritos Econômico Filosóficos. Thomas Hobbes, John M. Keynes e Alexis Tocqueville podem ser deixados como leituras posteriores, e entre de cabeça em Platão, Marx e Weber - são gigantes das ciências humanas.
Os livros introdutórios, vamos lá..
ECONOMIA - História do Pensamento Econômico, uma perspectiva crítica. Escrito por E.K. Hunt, livro da editora Campus.
SOCIOLOGIA - Um Toque de Clássicos: Marx, Durkheim, Weber. Escrito pela Tania Quintaneiro e mais duas autoras, livro da editora da UFMG.
As Regras do Método Sociológico. Clássico escrito por Émile Durkheim, pode pegar a edição de bolso da editora Martin Claret (também há uma edição da editora Martins Fontes).
Da Divisão do Trabalho Social. Clássico escrito por Émile Durkheim, da editora Martins Fontes.
A Gênese do Capitalismo Moderno. Outro clássico, escrito por Max Weber e comentado nesta edição por Jesse Souza, livro da editora Ática.
Ciência e Política: duas Vocações. Outro clássico, escrito por Max Weber, também livro de bolso da editora Martin Claret.
Max Weber: Sociologia - Coleção Grandes Cientistas Sociais, da editora Ática.
ANTROPOLOGIA - Antropologia Cultural e Social, escrito por Hoebel e E. Frost, da editora Cultrix.
Antropologia: uma Introdução. Escrito por Marina Marconi e Zelia Presotto, da editora Atlas.
Sobre Obama e a corrida presidencial na América diria que o amigo tem sua razão para compreender que uma real mudança é muito dífícil se esta for de encontro aos interesses corporativos, que como sabemos tem um peso fortíssimo na política norte-americana. Há pensadores, críticos mais vorazes como o amigo citou, que entendem que quem dá as cartas na Casa Branca não são os homens que ali se sentam e "comandam" a potência, mas sim as Companys, as Gigantes do Mundo Corporativo, ou Wall Street. Ou seja, quem comanda a maior potência da terra não é seu governo, até porque nos Estados Unidos o Estado tem um papel muito pequeno se comparado por exemplo com os nossos modelos hipertrofiados latino-americanos, mas a iniciativa privada, não só do Petróleo.
Um Presidente americano, nesta perspectiva, não vai bater de frente com IBM, McDonalds, Microsoft, Standard Oil, Texaco, e isso é verdade. Basta fazermos a seguinte reflexão: por que os americanos não assinaram o Protocolo de Kyoto, sendo eles os maiores poluidores do planeta e emissores de gases na atmosfera? Porque isso seria dar as costas as companhias norte-americanas, sendo uma espécie de negação a si mesmos.
E assim, por mais que Barack Obama se anuncie como uma força transformadora, como o agente "the Change", esta transformação dificilmente se dará na contramão da história política norte-americana que é justamente do peso que representa no país a iniciativa privada e suas gigantes corporações.
Dica de Instituição, em Minas Gerais, só poderia ser a nossa UFMG (em Sociologia - Ciências Sociais, e até em possíveis especializações em Antropologia posteriormente).
Espero tê-lo ajudado, e continue conosco nos vídeos, no blog, e sempre que quiser dê sugestões, questões, que ficarei muito grato aqui.
Abraços do amigo, Prof. Tiago Menta."





ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO - O FIM DA TRILOGIA DE MOJICA MARINS!

Estreiou a algumas semanas em alguns estados brasileiros (SP, RJ, RS e MG), infelizmente, o filme que encerra a trilogia do cineasta brasileiro José Mojica Marins e seu já folclórico personagem "Zé do Caixão" - Encarnação do Demônio.

"Encarnação" dá fim a trilogia que ainda reúne, na década de 60, os filmes "Á Meia-Noite eu Levarei tua Alma" e "Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver".

Aqui no Brasil Mojica não possui o reconhecimento que tem por exemplo nos Estados Unidos, onde é conhecido como Coffen Joe (nome que deram ao personagem Zé do Caixão). Porém, com a produção do filme após décadas de tentativas fracassadas (inclusive com a morte do primeiro produtor, na década de 70), com o lançamento do livro biográfico de Mojica "Maldito", com o programa estilo talk show no Canal Brasil "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" (nome de filme também estrelado por Mojica), parece-me que tanto o cineasta quanto seu emblemático personagem começam a ganhar a devida atenção do público brasileiro, especialmente entre os adolescentes (que gostam de filmes de horror).

QUEM É "ZÉ DO CAIXÃO"?

Para muitos que querem se aventurar no novo filme de Mojica talvez este possa parecer confuso, estranho, pois o mesmo deve ser assistido após serem vistos os filmes anteriores para que o espectador entre, literalmente, na lógica do personagem.

Zé do Caixão, ou Josefel Zanatas (Satanás de trás para frente), é um agente funerário que vive numa cidade pacata do interior brasileiro. Após uma experiência traumática com a ex-noiva, inclusive morta por ele, Josefel torna-se um homem essencialmente cético e materialista.

Zé entende que as demais pessoas, ou mesmo o populacho, são seres inferiores já que estão presos a religiosidade, a uma vida de submissão, carregada de crendices, superstições, e que como tal não merecem a própria vida - visto que não a desfrutam. Assim o personagem se auto-define como Superior, como Homem-Superior.

Como materialista que é, Zé acredita que viverá eternamente apenas através de uma criança gerada por ele - a hereditariedade do sangue, e não a da alma. Para isso, já que se entende Superior, busca uma mulher que possa acompanhá-lo em superioridade, uma mulher livre de crendices, religiosidade, liberta e corajosa. E ai se inicia sua busca, mostrada nos três filmes.

Para saber se a mulher realmente é Superior e não mais uma, mais uma do populacho inferior, Zé do Caixão submete-as a inúmeros testes, carregados de crueldade, horror e dor - e assim o uso de animais peçonhentos como aranhas, baratas, ratos, cobras, e de várias formas de torturas.

ZÉ DO CAIXÃO - FILOSOFIA NIETZSCHIANA?

Como dito acima, Zé do Caixão se entende um homem superior, diferenciado do populacho preso a religião e as crenças ou superstições. Isso faz lembrar, de certa forma, a lógica da filosofia nietzschiana, na apresentação do Além-Homem pelo profeta Zaratustra - de um homem superior sim, se comparado aos homens (Nietzsche até os chama de macacos) simples, populares, perdidos na ética judaico-cristã ou como afirma Nietzsche "na lógica dos ressentidos".

Para Nietzsche o homem moderno vive no niilismo, no vazio existencial, pois está entregue e submisso a uma ética e moral que valorizam não este mundo, não a humanidade, mas sim uma vida de retidão (apolínea) e de busca por um devir metafísico - e assim torna a sua filosofia, dita do "martelo", uma crítica voraz ao cristianismo e ao judaísmo, e a própria tradição filosófica metafísica alemã (representada por Kant e principalmente Hegel).

Zaratustra, profeta iraniano da Antiguidade e construtor da primeira religião monoteísta (Zoroastrismo), é tornado personagem na obra "Assim Falava Zaratustra" como anunciador do Übermensch ou Além-Homem/Super-Homem Nietzschiano: livre, superior, valorizador do hoje e do mundo dos homens, negando toda forma de metafísica (o profeta diz - homens, parem de cuspir para cima!), levando uma vida próxima dos valores clássicos, greco-romanos, o que Nietzsche aponta como vida "dionísiaca" (deus da alegria, das festas, da bebida, da não-autoridade e do não-limite).

Zé do Caixão, personagem de Mojica (um grande cineasta e um homem inteligente, mesmo destituído de erudição) pode ser aproximado sim do Além-Homem Nietzschiano, não na violência do personagem, mas no materialismo do mesmo, na idéia de que um homem livre de crenças é um homem verdadeiramente livre, talvez superior?

Leiam Nietzsche "ASSIM FALAVA ZARATUSTRA" e assistam a trilogia de Mojica "À MEIA-NOITE LEVAREI TUA ALMA", "ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER" e nos cinemas "ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO".

terça-feira, 5 de agosto de 2008

OS JOGOS OLÍMPICOS CLÁSSICOS



OS JOGOS OLÍMPICOS CLÁSSICOS
Na próxima sexta-feira, dia 8 de agosto, inicia-se na cidade chinesa de Pequim mais uma edição dos Jogos Olímpicos Modernos - criado no final do século 19.
Muitos não sabem, mas na Grécia Clássica, habitus dos Jogos a partir do século 8 AC, o sentido de fazê-los era muito, muito diferente do sentido que hoje possui - como evento internacional, reunindo festa e oportunidades de negócios (não é à toa que a seleção da cidade sede é uma verdadeira batalha política).
Os Jogos eram promovidos por toda a Grécia, em suas várias cidades-Estados ou "pólis", a cada quatro anos (mesmo intervalo de tempo dos Jogos Modernos). Contudo, estes Jogos eram manifestação cultural exclusiva dos gregos e estes o faziam como uma espécie de "Festividade Fúnebre"....isso mesmo, como um excêntrico "Dia de Finados".
Rememorar e reverenciar os mortos dos últimos quatro anos passados - este era o sentido dos Jogos! Como no evento moderno haviam uma série de competições atléticas/esportivas: boxe (sem luvas ou qualquer proteção), atletismo e derivados (como saltos, maratona, arremessos), hipismo, arco e flecha. Uma curiosidade - todos os atletas gregos realizavam as suas perfomances completamente nus! E além disso era proibida a participação de mulheres nos Jogos, seja como atletas e até mesmo como espectadoras.
Na próxima sexta a "Tocha Olímpica" será acesa, dando início aos jogos. E na Antiguidade? A mesma coisa, porém a tocha não era assim tão significativa quanto o fogo, este sim, símbolo forte entre os gregos através de sua mitologia, como na lenda de Prometeu (roubou o fogo dos deuses e entregou-o aos homens, sendo castigado por toda a eternidade - acorrentado a um penhasco, tinha seu fígado todos os dias devorado por aves de rapina, fígado que no dia seguinte se regenerava para novo e terrível castigo).
E os prêmios? Hoje são dados aos campeões olímpicos além do louro da vitória (também dado aos campeões da Antiguidade) as medalhas de ouro, prata e bronze. Na Antiguidade há relatos de entrega de prêmios como enormes vasos, éguas e até mulheres!
O nome "Olímpiadas" é derivado do nome da pólis grega "Olímpia". Isso ocorrera porque em Olímpia eram realizados os mais esperados e prestigiados jogos dentre todas as pólis gregas, especialmente quanto a regularidade dos jogos - em Olímpia eram realizados, sempre, a cada quatro anos, isso entre os séculos 8AC até o século 5 DC já dentro do Império Romano, no final da Idade Antiga. Mas, por que as Olímpiadas chegaram ao fim?

A IGREJA ROMANA - O FIM DAS OLÍMPIADAS CLÁSSICAS
No século 5, no final da Idade Antiga, caminhando a Europa para a castelização de sua sociedade (formando o chamado Feudalismo, e adentrando para a Idade Média), Roma ainda governava o mundo antigo com mãos de ferro!
No centro do poder romano haviam os seus imperadores, e no final do século 5 já havia se estabelecido no seio do Estado romano um novo poder - a Igreja Romana ou o Catolicismo. Fora neste mesmo século que Constantino I aceitara e dera liberdade religiosa aos cristãos, e Teodósio I o imperador que enfim estabelecera o cristianismo como Igreja Oficial do Império Romano, logo criando a própria noção de Igreja Romana (não fora Pedro, Paulo, nem Jesus, os criadores do Catolicismo mas Teodósio, um dos imperadores romanos do século 5).
Em Olímpia, desde o século 8 AC, os Jogos eram realizados a cada quatro anos, mantendo uma milenar tradição. Com o advento do Cristianismo no mundo romano, e a Grécia pertencia como quase todo o mundo antigo aos romanos e seu vasto Império, a tradição dos Jogos começara a ser vista pelo poder com maus olhos.
O Imperador Teodósio I, fervoroso cristão, entendia que os Jogos realizados na Grécia eram contrários aos preceitos cristãos - lembremos do fogo e da chama mitológica, dos atletas nus em competição, da estética dos corpos e não da alma...ou seja, o inferno era o lugar mais apropriado para os participantes dos Jogos!
Teodósio I se justificou dizendo que os jogos eram manifestações pagãs, não-cristãs e que a partir daquele momento os jogos estavam terminantemente proibidos! Vencia a pureza da alma, a busca pelo espírito, de maneira intolerante.
Os Jogos assim ficaram, em suspenso, por toda a Idade Média e Idade Moderna, sendo recuperado no final do século 19 tendo como Atenas o país sede dos Jogos Olímpicos Modernos (só interrompido durante as Guerras Mundiais - 1914/1918 e 1938/1945).

terça-feira, 22 de julho de 2008

O CORINGA DE LEDGER - ANARQUISTA?


O CAOS ESTÁ NOS CINEMAS!
Fazia tempos que um filme, mesmo hollywoodiano, não provocava em mim dupla percepção: de aprendizagem, reflexão constantes, e ao mesmo tempo de ótimo entretenimento. Isto é "BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS" que estreiou nos cinemas mundiais no último dia 18 deste mês.
Mas, e de onde vem o "Caos" presente neste filme? Materializado na figura do Coringa, interpretado brilhantemente pelo já falecido ator Heath Ledger (vitimado por uma overdose de medicamentos em janeiro deste ano).

O CORINGA DE LEDGER - ALUSÃO AO PENSAMENTO ANARQUISTA
O Coringa não é um vilão como os outros, clássicos em filmes de heróis ou mesmo nas histórias em quadrinhos, e o próprio personagem afirma isto no filme "Não sou como vocês (...) sou algo melhor, diferente". Então, o que ele é?
Os vilões clássicos buscam dinheiro, poder, coisas materiais, típicas de um mundo mercantilizado como o atual. Eles roubam, sequestram, matam, em nome do poder e do dinheiro. Simples. O Coringa não - ele rouba, sequestra, mata, não pelo dinheiro, poder ou coisas materiais, ele simplesmente quer ver "o circo pegar fogo" e mais nada. Ele quer o caos, ele quer o descontrole, e ele se apresenta no filme como um agente deste descontrole.
Indício disto é a cena onde o Coringa coloca fogo numa pilha gigantesca de milhares e milhares de dólares, ou seja, ele desdenha da propriedade privada! Muitos diriam que ele é louco, afinal como diz a cultura popular "rasgar dinheiro" é manifestação própria de quem perdeu a consciência, mas para o Coringa não, ele não rasga dinheiro ou queima-o por loucura, não, ele age assim pois queimando milhares de dólares ele põe em xeque um pilar de nossa sociedade: a propriedade privada. Estamos habituados a ter a noção de propriedade como algo intocável, quase divino, sendo inclusive preceito básico de nossas leis (o direito à propriedade).
O fim da propriedade privada é um dos pilares de dois pensamentos políticos construídos ou fortificados no século 19: o Socialismo e o Anarquismo. Em ambos encontramos um outro pilar, de suma importância: o igualitarismo. Para o Coringa todos somos iguais, não há dúvida. Mas isso nao se traduz como no sentido do coletivismo, do humanismo, não, para o Coringa todos somos iguais na hipocrisia, na necessidade e busca pelo auto-controle e por algo que nos controle (como os governos, o Estado, as autoridades) porque em essência somos todos uns animais em completo descontrole, e ele, ao contrário das pessoas comuns ou mesmo "civilizadas" deixa este descontrole, natural, aflorar e se manifestar numa Gotham City que se torna prisioneira de si mesma, prisioneira em várias circunstâncias do verdadeiro caos.
Quando aqui me refiro ao "Caos" não é pura e simplesmente em termos de bagunça, não, falo em termos da origem etimológica grega (anarchos) de falta de governo, falta de autoridade. E é pela falta de governo e autoridade que Gotham City precisa de figuras como Batman (para manter o controle) ou apresenta figuras como Coringa (para gerar o descontrole).
Para questionar ou mesmo destruir as noções ou figuras de autoridade, o Coringa atua sobre a figura do eminente promotor público Harvey Dent, causando-lhe a perda de sua noiva - provocando-lhe uma transformação tão intensa que Harvey, de idealista e íntegro homem das leis (essência do controle), se torna um justiceiro cruel e incrédulo como "Duas-Caras", reforçando a descrença na justiça e a própria situação de caos, de falta de autoridade em Gotham City.
Mas o que quer o Coringa com tanta destruição e caos? Uma sociedade nova e mais livre, com certeza. Uma sociedade sem controle, sem autoridades, sem propriedades, onde todos viveríamos uma espécie de estado natural.
Em suma, percebe-se, a partir do personagem, toda uma influência da teoria anarquista na construção deste mesmo personagem e na própria caracterização do Batman e de outros heróis - ou seja, os heróis são em essência agentes do controle, mantenedores da ordem existente. Os heróis não podem gerar transformações, nunca. Os heróis são conservadores por excelência. Alguns vilões, como o Coringa, causam furor e muito estrago por simplesmente atuarem como agentes do descontrole e que possuem capacidade criativa, de geração de algo novo, de transformação.
De alguma forma Gotham City é nossa vida em sociedade, sombria e dura. Nossos governos e autoridades possuem limites, e quando elementos de destruição e descontrole, transformadores, como o Coringa aparecem logo a mesma sociedade produzirá seus heróis, conservadores, mantenedores do controle e da ordem como Batman.
Finalizando, uma certa vez afirmara Michail Alexandrovich Bakunin (1814-1876):

"A PAIXÃO PELA DESTRUIÇÃO É TAMBÉM UMA PAIXÃO CRIADORA"

terça-feira, 15 de julho de 2008

Audiência Pública Debate a Valorização da Educação Pública




Ontem a noite, dia 14 de julho, foi realizado um debate público na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, sob coordenação do deputado Durval Ângelo-PT/MG que preside a comissão parlamentar de Direitos Humanos, discutindo a educação pública brasileira e em especial com amparo do lançamento da obra "Resgatando os Valores da Escola Pública" da minha colega professora/escritora Maria Luciene.
Além do deputado e da professora também participaram do evento o professor Alber Fernandes (EE Três Poderes), professor José Juvenal (EE São Rafael), representantes da editora Literato e eu, professor Tiago Menta.

O que foi discutido?
Várias questões sobre a educação pública, a partir da realidade vivida pelas instituições e profissionais do estado de Minas Gerais. O papel da família na educação de crianças e jovens (aqui localizada a minha intervenção na mesa), os investimentos públicos em educação nos últimos anos, o piso salarial para professores, a violência escolar, a valorização do profissional da educação e a necessária formação continuada, o papel da sociedade em meio aos problemas de nossa educação.

O que foi proposto?
- necessidade de mais investimentos em educação, não só em insumos físicos mas em qualidade profissional (remuneração, incentivo a docência e formação continuada).
- maior participação da sociedade quanto a fiscalização sobre as verbas a ser destinadas ao investimento em educação (pela Constituição Cidadã de 1988 25% do orçamento de estados e municípios).
- criação de uma espécie de "ProUni" para cursos de pós-graduação a professores da rede pública de ensino.
- uma chamada mais contundente aos pais e responsáveis para que valorizem a educação de seus jovens, e que o Estado promova uma espécie de "Choque Educacional" sobre os brasileiros adultos, com filhos matriculados em escolas públicas, que hoje apresentam um alarmante quadro de 54% de não conclusão do ensino fundamental, 3% de formação superior completa, 7% de acesso a internet, 72% apresentando problemas de alfabetização funcional (lêem e escrevem, mas com erros e muitas dificuldades de assimilação, interpretação).

A Minha Avaliação desta Audiência Pública:
O deputado Durval Ângelo, do PT mineiro, aponta horizontes de avanços em termos educacionais, contudo não mostra percepção quanto ao círculo vicioso presente em nossa educação brasileira - INCLUSÃO SEM QUALIDADE!
O mesmo deputado afirmara que é necessário a população, ou melhor que a sociedade fiscalizasse as instituições públicas, suas comissões, e que exijam destas o devido investimento previsto em lei federal (25% dos recursos) - porém o nobre deputado se esquece que uma sociedade participativa, fiscalizadora, engajada nas questões do país como deveria ser quanto a educação deve ser, antes de tudo, uma sociedade EDUCADA. E isso, leitores, nós brasileiros não somos (as pesquisas internacionais como o PISA mostram isso). Nossos adultos não possuem uma sólida formação, um arcabouço mínimo de compreensão e de conhecimentos, e acabam por desvalorizar o papel da educação como agente transformador e promovedor de inserção e inclusão social efetiva (sem servilismo, que é o que os governos brasileiros fazem quando afirmam distribuir riqueza) - o que desagua no distanciamento vivido hoje nas relações entre escola e comunidades.
A audiência foi significativa, aliás debater sobre a educação nunca será demais num país que antes de tudo deve ser repensado em termos educacionais e além, deve ser revisado o papel da educação como política pública em nosso país. Se fazendo como lei a destinação de 25% dos recursos de estados e municípios para a educação aponta para a realidade que ai está, de sucateamento e descrédito, só podemos pensar nas seguintes soluções:

1º: FISCALIZAÇÃO = FIM DA CORRUPÇÃO/ é a garantia de que a verba, 25%, é realmente destinada para melhorias na educação pública (excluindo-se disto coisas como merenda escolar ou reformas prediais).
2º: AUMENTO DAS VERBAS, proporcionais de acordo com a demanda do estado ou município. Se um estado ou município possui clara desestrutura educacional (avaliados anualmente por profissionais em educação e não tecnocratas) este deverá ter os 25% exigidos aumentados até que a situação daquele estado ou município atinja o aceitável em educação (professores bem remunerados - baixa evasão escolar - baixa repetência escolar - baixo índice de analfabetismo e baixo índice de analfabetismo funcional/investindo em educação à distância e na educação de jovens e adultos EJA).

O que é o livro "RESGATANDO OS VALORES DA ESCOLA PÚBLICA", da professora Maria Luciene (editora Literato, já nas melhores livrarias de Belo Horizonte)?
Como já disse pessoalmente a colega Maria Luciene a sua obra não é, por excelência, um discurso teórico mas sim um relato muitas vezes até emocionado, sem perder a razoabilidade e a clareza de idéias , sobre o que vem a ser hoje o SER PROFESSOR EM MINAS GERAIS a partir de inúmeras experiências dentro da escola pública - como em projetos da prática do xadrez como ferramenta pedagógico-matemática, da lagoa da Pampulha como projeto de preservação de nossos recursos hídricos e do meio ambiente como um todo (a chamada consciência ecológica), da produção de textos e do fomento a leitura através do uso dos jornais e outros periódicos.
Em síntese eu diria aos meus leitores que o livro da colega Maria Luciene se faz uma leitura necessária para todos aqueles que se envolvem de certa maneira com o EDUCAR, sendo uma obra quase ontológica por mostrar, com objetividade e carinho, o SER PROFESSOR (quem ele é, o que ele faz, o que ele tem como demanda profissional, o que ele precisa, o que ele pode fazer, o que o motiva e o que o desmotiva).
Sendo assim, aqueles que me têem como referencial intelectual aceitem o meu convite e comprem e leiam
LUCIENE, Maria. RESGATANDO OS VALORES DA ESCOLA PÚBLICA. Belo Horizonte: 2008, editora Literato.

domingo, 8 de junho de 2008

A OBAMAMANIA

Aos amigos e amigas,
nos últimos tempos venho publicando pouco aqui no blog por dedicar-me a produção de vídeo-aulas no youtube (www.youtube.com/tiagomenta), que por sinal já reúne 4 séries de vídeos:
1- A Cultura Medieval (8 vídeos postados).
2- O Antigo Egito (5 vídeos postados).
3- O Islamismo (6 vídeos postados).
4- A Mesopotâmia ( 3 vídeos postados).

OBAMAMANIA
E Obama venceu as prévias democratas para a candidatura à presidência da maior potência econômica e militar da Terra!
Primeira etapa vencida, o caminho agora é da reconstrução da campanha. Afinal, após cinco meses de intenso embate com a família Clinton, o candidato da "change" precisa agora reunir forças e partir para um segundo e decisivo embate com o republicano John MCcain.
Todo este processo eleitoral, apesar do vexame na primeira eleição de Bush Jr (fraudes e mais fraudes que retiraram a vitória das mãos do democrata e eco-político Al Gore), retoma, definitivamente, os valores democráticos e liberais da sociedade norte-americana. Em resumo: um show de democracia.
Mas, qual a razão desta verdadeira "Obamamania"?
Creio que é o sentido histórico destas eleições, que tiveram como primeiro round a intensa disputa entre uma mulher e um negro pelo posto de sério candidato a comandante da Casa Branca. Segundo é o sentimento "pós-Bush", que denota na sociedade norte-americana, especialmente entre os mais jovens, um certo cansaço do mesmismo político representado por uma série de presidentes republicanos que governaram através e em meio de guerras (Ronald Reagan, George Bush e George Bush Jr). Terceiro, que é derivada da razão anterior, é a maçiça presença de eleitores nas prévias dos dois partidos em disputa, que mostra que a sociedade norte-americana está, neste processo, mais engajada e interessada em política. E por fim, com a vitória de Obama e sua postura política (anunciando-se como porta voz da mudança que a sociedade norte-americana, mais jovem, anseia) e ainda por cima mostrando-se um candidato negro e que consegue superar as raízes segregacionistas, belico-etnicas deste país que a poucas décadas não permitia, por exemplo, que negros e brancos frequentassem os mesmos lugares no transporte público.



BARACK OBAMA E JOHN KENNEDY - MESMO DESTINO?
Falando em história norte-americana vale lembrar que muitos de seus presidentes sofreram atentados contra suas vidas, sendo que dois de seus mais ilustres representantes realmente acabaram mortos: Abraham Lincoln e John Kennedy.
Lincoln, que libertou os negros da escravidão e muito desagradou os antigos escravocratas sulistas, acabara morto à tiros dentro de um teatro, e Kennedy que governava a nação no auge da Guerra Fria com a extinta URSS fora morto num desfile em carro aberto quando vários tiros foram-lhe desferidos a distância.
Ambos, Lincoln e Kennedy, foram presidentes que marcaram a história norte-americana cada um a seu modo, em contextos diversificados, porém foram comuns como anunciadores de uma nova ordem dentro dos Estados Unidos. E é isso mesmo que Barack Obama anseio ser, uma espécie de presidente dos "novos tempos", um líder que anuncia ao povo norte-americano a chegada de uma nova era onde problemas como a segregação racial serão coisas do passado.
O preço de ser este homem pode ser alto, e todo presidente norte-americano é forte candidato a alvo de tiros, bombas, complôs. Hoje o mundo não está menos belicoso que antes, estão aí norte-coreanos, iranianos, venezuelanos, chineses mostrando que ainda vivemos numa espécie de corda bamba geopolítica.
Obama, se vencedor como hoje parece quando confrontado com McCain, deve tomar muito cuidado e ter redobrada atenção na composição de um possível governo pois se ao mesmo tempo a vontade de mudar, de plantar a semente de uma nova era existe ao mesmo tempo coexistem as forças obscurantistas que, historicamente sitiadas no oeste ou no sul do país, e que nestes tempos nos "brindaram" com muito sangue e atraso, insistem em incomodar e lutarão até o fim para a manutenção da ordem existente hoje.
Sem o menor pudor desejo a Barack Obama toda a sorte e espero que governe com justiça e inteligência. Que ele seja a mola propulsora da mudança, não somente nos Estados Unidos, mas para todos nós americanos (como um dia pensamos que fosse Lula e ele já aponta, a bom tempo, que não o é).

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Resumo da pesquisa do prof. Leandro Azevedo; Agradecimento!

CONTRIBUIÇÃO DOS AMIGOS E AMIGAS
O colega professor Leandro Azevedo me envia seu projeto de pesquisa a ser em breve transformado em artigo científico.
Leandro trabalha com a Educação nacional, sob a perspectiva dos programas sociais/de transferência de renda (como o Bolsa Família) e quais seriam os impactos dos mesmos programas para a formação da cidadania em nossa Belo Horizonte, a partir de uma experiência com a rede municipal de ensino entre os anos de 1996-2006.
Segue abaixo o resumo deste projeto, elaborado pelo colega Leandro:

"O tema proposto neste projeto de pesquisa são as Políticas Públicas e a Construção da Cidadania, através do Programa Bolsa-Escola Municipal da Prefeitura de Belo Horizonte (BEM/BH), na Escola Municipal de Belo Horizonte, no período de 1996 a 2006.
Neste trabalho, serão destacados os programas – Bolsa Escola Municipal da Prefeitura de Belo Horizonte (BEM/BH), instituído pela lei nº. 7135 / 1996, de autoria do prefeito Patrus Ananias, e regulamentado pelo decreto nº. 9140/1997, no governo do prefeito Fernando Pimentel, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), e o Programa Bolsa Família (PBF) instituído pela Medida Provisória n0 132 de 20 de outubro de 2003, em função da interligação entre ambos.
O desenvolvimento do trabalho será realizado em várias etapas; primeiramente, análise dos documentos oficiais do Município, tais como DOM, Relatório Programa Bolsa-Escola Municipal da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (SMED, 2004), depois, um estudo de caso, partindo-se da seleção de uma família, (sujeitos informantes) com base nos seguintes critérios: os filhos na faixa etária de 06 a 15 anos, estudantes do Colégio Municipal de Belo Horizonte, moradores da pedreira Prado Lopes, beneficiados pelo Programa BEM/BH, desde 1997 até os dias atuais.
O objetivo primordial do projeto é analisar as Políticas Públicas a partir do Programa Bolsa Escola Municipal da Prefeitura de Belo Horizonte, para verificar até que ponto o Programa ajuda ou não na construção da cidadania.
A partir dessa premissa busca-se, portanto, responder ás seguintes perguntas: Qual a contribuição da Política de Transferência de Renda Mínima vinculada à Educação, no período de 1996 a 2006, a partir do Programa Bolsa-Escola Municipal da Prefeitura de Belo Horizonte, na Regional Noroeste, na construção da cidadania emancipatória de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, na faixa etária de 06 a 15 anos, na Escola Municipal de Belo Horizonte? O BEM/BH foi uma política outorgada pelo Estado ou historicamente conquistada pelos movimentos sociais? Se foi conquistada, à o reconhecimento dessa conquista por parte das famílias beneficiadas?"
Estamos todos esperando a produção do artigo!
UM EMPREENDIMENTO QUE JÁ NASCEU VENCEDOR!
Quero aqui agradecer aos colegas, amigos, ou mesmo estudantes e todos aqueles que nos últimos dias vem me parabenizando pela iniciativa de colocar no ar, via internet, uma série de vídeo/aulas de História - iniciada pela série "Cultura Medieval", que hoje, dia 5 de maio, já reúne 6 vídeos.
A intenção dos vídeos é a promoção e difusão do conhecimento histórico pela via mais democrática que hoje desfrutamos no mundo pós-moderno: a internet! Claro, não quero aqui substituir uma boa sala de aula, ou mesmo horas de boa leitura, mas tenho como objetivo contribuir para que jovens, especialmente os jovens, tomem contato mais direto, mais ágil, sem perder conteúdo, com o conhecimento histórico.
Espero as sugestões, dicas, contribuições de todos para que tornemos esta iniciativa a válvula de escape para milhares de iniciativas similares entre todos os profissionais da educação (como já faz o amigo Ghiraldelli com a Filosofia e seu sempre aberto Filo das 11).
Abraços a todos!
prof. Tiago Menta

domingo, 4 de maio de 2008

A CULTURA MEDIEVAL E OS DIAS DE HOJE - SEMELHANÇAS

A CULTURA MEDIEVAL E OS DIAS DE HOJE
Muitos se perguntariam hoje em dia "qual a relevância de se estudar a cultura medieval em pleno século XXI?", a resposta é simples e pode surpreender: ainda persistem elementos da cultura medieval em nossa sociedade pós-moderna!
Com o Iluminismo do século 18 tudo o que se refere/remete a Idade Média ou mesmo ao termo adjetivado "medieval" acabara se tornando sinônimo de atraso, de obscurantismo - o que em muitos sentidos é um erro. A mesma cultura medieval que produziu a Inquisição/o Tribunal do Santo Ofício, as torturas horrendas, a perseguição a mulheres tidas como bruxas ou mesmo amantes do demônio e também a hereges que supostamente contrariavam os dogmas romanos, é o mesmo período que produzira as ordens monásticas, a cavalaria, o canto gregoriano, a arte gótica, etc., ou seja, há neste longo período histórico uma infinidade de "prós e contras".
Voltando ao argumento inicial, hoje encontramos, nos idos do ano de 2008, elementos medievos em nosso mundo dito pós-moderno. Vamos ao primeiro elemento: o encastelamento da sociedade!
Como se sabe a sociedade feudal, especialmente entre os primeiros séculos da Idade Média (V-IX), acabara por encastelar-se numa série de feudos, de porções de terras quase autônomas/autosustentáveis em decorrência da insegura vida que se vivia naqueles tempos, afinal as invasões de povo germãnicos ainda ocorriam com alguma frequência e permanecer no feudo, cercado por suas longas muralhas e guardadas por milícias pessoais de nobres representava de certa maneira uma vida mais segura.
E hoje, o que estamos assistindo?
Quase a mesma coisa, com as devidas diferenças temporais e tecnológicas, contudo há uma nascente lógica em nossa sociedade: o encastelamento da parte privilegiada de nossa população. Inicialmente com a construção dos chamados "condomínios fechados" (lembrando que os feudos também eram conhecidos por domínios) e agora mais além: verdadeiras mega-construções, mini-cidades, dentro de uma cidade, isolando quase que completamente as pessoas do nosso mundo real e portanto inseguro.
Nestas novas construções, algumas já em funcionamento na cidade de São Paulo, os moradores não necessitam sair de casa mais para ir ao shopping, ao cinema, trabalhar, fazer compras nos supermercados, fazer ginástica, pois tudo isso e tudo o que supostamente encontramos em nossas áreas urbanas já estão a disposição do morador destas "mini-cidades", que são autosuficientes, como verdadeiros domínios feudais, e não se enganem, possuem a melhor tecnologia em termos de segurança e muitos homens treinados para dar segurança a nossa nobreza tupiniquim.
E não se enganem acreditando que na Idade Média, em tempos obscuros, os homens viviam em barbárie, cometendo as mais terríveis atrocidades entre si - oras, vejam os noticiários mais recentes: menina de 5 anos atirada janela afora após constantes espancamentos(Isabella Nardoni)/mulher encontrada desmembrada (com o tronco queimado dentro de pneus) em favela do Rio de Janeiro/criança de 12 anos mantida em apartamento sob torturas constantes e cruéis (em Goiânia)/pai mantém em relações incestuosas (gerando 7 filhos) e cárcere privado sua própria filha num bunker dentro de casa por mais de 20 anos - pois é, percebam que nossa sede de sangue, terror, e sadismo nada tem de exclusivo com os tempos medievais.
Para encerrarmos de vez os tempos medievos na contemporaneidade só faltaria a Igreja se sobrepor aos homens leigos e governantes, impondo as suas certezas nada flexíveis e sempre ortodoxas - vide o atual papa Bento 16 e sua política de cerceamento das liberdades humanas, a luta travada em nosso país para a liberação de pesquisas com células-tronco embrionárias (os clérigos preferem ver material orgânico no lixo do que salvando vidas ou mesmo dando qualidade de vida para milhares de pessoas) ainda paradas no STF, o crescimento absurdo do puro evangelismo barato e sensacional (entre católicos e protestantes).
E falando em pesquisa em células-troncos embrionárias para quem não sabe durante a Idade Média era pecado mortal, crime, o uso de cadáveres para estudos anatômicos (diziam que se estaria molestando algo sagrado, no caso o corpo) - e agora questiono-me: o que seria de nossa medicina moderna sem estudos com corpos humanos? Pois é, estaríamos morrendo com 30 anos de idade, se dependessemos da opinião da Igreja, de qualquer igreja, para sobrevivermos, já que ela não permite, sob hipótese alguma, a manutenção da vida através da ciência e da tecnologia, segundo suas lógica milenar o jeito mesmo é esperar Deus nos iluminar, nos curar, após horas e horas de orações e jejuns. Impressionante não é mesmo!