sexta-feira, 10 de julho de 2009

ROBERTO CARLOS: GÊNIO POÉTICO OU PERU DE NATAL GLOBAL?




Cachoeiro do Itapemirim-ES, 1959, surgia um dos maiores ídolos da música brasileira: Roberto Carlos.Agora são 50 anos de carreira completos, e então, como analisar o cantor, compositor, após décadas de sucessos, mistérios, perdas pessoais (esposas), problemas psicológicos (como o toque)? Como entender Roberto Carlos, vulgo "rei" da música nacional, uma espécie de Elvis tupiniquim? Um revolucionário ou um contra-revolucionário? Um piegas ou um genuíno poeta?

Roberto apareceu no cenário musical brasileiro em meio a onda rock'roll, que já se anunciava na América com nomes como Bill Halley, Chuck Berry, Little Richards, Jerry Lee Lewis, eespecialmente o ícone Elvis Presley. No início Roberto e o próprio movimento jovem que se organizou na televisão brasileira em torno dele (Jovem Guarda) eram uma tentativa pura e simples de reproduzir aqui o que já se fazia na América ou mesmo na Europa (inclusive muitas músicas da Jovem Guarda possuem origem em músicas italianas, como Era um garoto que como eu amava os Beattles e os Rolling Stones).

Mas como toda onda passa, esta passou, a Jovem Guarda ruiu, e vieram os anos setenta com seu psicodelismo, seu "paz e amor", a era disco, e o próprio Roberto tentou reproduzir isso no próprio visual, que depois virou marca registrada: os longos cabelos, em substituição ao cabelinho lambuzado de gel e caidinho da época da Jovem Guarda. Vieram composições mais maduras, mesmo quando o intento era o romance - "Amigo", "Jesus Cristo", "Cama e Mesa".

Roberto, avançando nos anos 80, começa a entrar em parafuso, musicalmente e pessoalmente. Vem composições ridículas como as que ele "homenageava" caminhoneiros, mulheres gordas, mulheres baixinhas. Na vida pessoal ele já demonstra um espiritualismo beirando o dogmatismo, e não é a toa que o cantor faz apresentações como na vinda de João Paulo II ao Brasil (ou em composições como Nossa Senhora). Ao mesmo tempo já começa a manifestar espasmos de superstição, maneirismos - fruto da doença psicológica do toque (usar branco nas apresentações, ter pavor a cor marrom).
Para agravar a situação Roberto Carlos sofre constantes perdas pessoais, culminando com a morte da esposa Maria Rita após anos lutando contra um câncer.

Em termos gerais Roberto Carlos pode e deve ser entendido como um grande cantor brasileiro, um grande compositor (na dupla que formou com o carioca Erasmo Carlos) e um poeta. Não foi um revolucionário, não representou o novo em nosso país, pelo contrário, representava a reprodução de modismos que eram hegemônicos mundo afora, inclusive muito se discute o seu silêncio musical durante o regime militar (1964-1985): afinal de contas, era difícil escrever "eu te amo baby" em meio a um país onde muitos jovens eram mortos, torturados, reprimidos, numa ordem política e social sufocante. Outro fator que aponta Roberto Carlos na direção da contra-revolução é a exclusividade global, que seria como assinar o pacto com o diabo (que responde pelo nome de Roberto Marinho e as Organizações Globo). Roberto Carlos se torna produto global, se torna o peru de Natal de todo o brasileiro médio (os shows de fim de ano), e isso chega a tal ponto que o dvd produzido pela MTV, chamado unpluged (ou show acústico) é vendido na praça mas proibido de ser veiculado na própria emissora que o produzira. E finalizando, a ridícula postura do cantor diante do magnífico trabalho do colega historiador Paulo César de Araújo "Roberto Carlos em Detalhes" que proibira o mesmo de vender/divulgar a obra biográfica.

Enfim, nestes 50 anos de carreira eu posso dizer de Roberto Carlos o seguinte: nota 10 como cantor e compositor, nota 0 como cidadão.

domingo, 14 de junho de 2009

ODE A JIM MORRISON


Ontem a noite assisti (Telecine Cult), novamente, e sem nunca cansar, ao clássico de Oliver Stone "The Doors" que nos remete a biografia do gênio poético-musical Jim Morrison, protagonista e vocalista da banda The Doors (As Portas, referência a obra As Portas da Percepção, de Huxley).
Morrison, falecido em Paris no ano de 1971 (vitimado por um ataque cardíaco aos 27 anos de idade - provocado por uma vida intensa, ávida, de excessos - álcool, viagens de mescalina e ácido, cocaína, nicotina, prazeres sexuais e até bruxaria ou ocultismo) é daqueles ícones criados nos loucos (e sempre criativos) anos sessenta, dentro da chamada contracultura (ele mesmo dizia fazer uma música de ruptura).
Repasso aos leitores e amigos a tradução do que considero a sua obra-prima "The End" ou "O Fim", utilizada inclusive no cinema como parte da trilha sonora de Apocalypse Now (filme sobre a guerra do Vietnã, estrelado por Marlon Brando):
"(...) my only friend - the end (...)" Inesquecível!

Este é o fim Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos...de novo
Voce pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente...de alguma...mão de estranho
Numa terra desesperada?

Perdido numa romana...selva de dor
E todas as crianças estão loucas
Todas as crianças estão loucas
Esperando a chuva de verão, sim
Tem perigo no extremo da cidade
Passeie pela estrada do rei, bem
Cenas estranhas dentro da mina de ouro
Passeie pela estrada do este, bem
Passeie pela serpente, passeie pela serpente
Para o lago, o antigo lago, bem
A serpente é longa, sete milhas (11 km)
Passeie pela serpente… Ela é velha e sua pele é gelada
O oeste é o melhor
O oeste é o melhor
Vá lá, e nós faremos o resto
O ônibus azul está nos chamando
O ônibus azul está nos chamando
Motorista, aonde está nos levando?

O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas
Ele tirou uma foto da antiga galeria
E andou pelo corredor
Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e...então ele
Pagou a visita a seu irmão, e então ele
Ele andou pelo corredor, e
E ele veio até a porta...e ele olhou para dentro
"Pai?", "Sim filho?", "Eu quero te matar."
"Mãe...Eu quero...te foder."

Venha bem, tente conosco (3x)
E me encontre atrás do ônibus azul
Fazendo um foguete azul, No ônibus azul
Fazendo um rock triste, vamos, sim
Matar, matar, matar, matar, matar, matar

Este é o fim, belo amigo
Este é o fim, meu único amigo, o fim
Dói te libertar
Mas você nunca vai me seguir
O fim da gargalhada e das mentiras suaves
O fim das noites que tentávamos morrer
Este é o fim

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Deus ao Telefone!

São seis da manhã, toca o telefone.
“Alô” (com voz suave, de tanto sono).
“Sou eu” (com uma voz grave, quase cavernosa).
“Eu quem? Sabe que horas são amigo?!”
“Claro, pois foi eu que criei o tempo”.
“Ta bom, preciso dormir. Daqui a pouco tenho que levantar e dar aula, não enche o saco meu irmão”.

Desligo o telefone.

Minutos depois, novo toque.
“Alô!!” (já nervoso com aquilo).
“Acho que não fui muito claro com você. Sou eu.”
“Eu quem? Fala sério amigo, é cedo para ficar de papo furado”.
“Eu sou o eu. Sou o hoje, amanhã e depois. Eu sou o teu criador.”
“Ah amigo, você acha que eu vou cair num trote desses? Tu deve ser algum aluno meu querendo fazer hora com a minha cara. Como conseguiu o meu telefone ein, se eu descobrir tu vai se foder direitinho.”
“Pelo visto não haverá outro jeito de você me dar a sua atenção senão provar-lhe a minha real existência. Pois bem, está vendo este copo de água ai ao lado de sua cama? Pois conte até cinco e diga abracadabra.”
“Ah bom, vamos ver então...um, dois, três, quatro e cinco - abracadabra!”
“Agora veja”.
“Puta que o pariu! Como conseguiu fazer isso?” (o copo antes com água se encheu de líquido avermelhado, grosso).
“Agora beba”.
“Ta bom” (já assustado e também curioso).
“Poxa! É vinho.”
“Claro, pelo jeito não conhece um de meus truques favoritos, vocês mesmos já escreveram sobre isso num livrinho antigo. Uma de minhas mais brilhantes criações fez isso a milhares de anos atrás.”
“Peraí. Aqui, quer dizer então que tu é Deus?”
“Bom, já que me chamam assim, digamos que sim.”
“E que você quer comigo?”
“Sei lá, bater um papo. Ando meio solitário.”
“Solitário? Com tantos adoradores, crentes, seguidores, místicos, guerreiros, sacerdotes, toda esta turma vivendo em função de vossa pessoa, como dizer que é só.”
“Não, não. Eu não suporto essa gente. Ficam me pedindo, pedindo, imagine se eu fosse escutar e atender todo mundo. E outra, ficam brigando achando que me conhecem quando na verdade nem sabem o que sou, como sou, o que penso ou faço. São todos uns babacas. Você é diferente Tiago, você nunca me pediu nada, você nunca esperou nada de mim e nem está nem ai para mim.”
“É, eu sempre digo para colegas e alunos que você morreu.”
“Mas eu morri mesmo, aliás eu nunca existi.”
“Vixi, ta complicada a conversa, como assim?”
“Isso a que chamam Deus não existe, nunca existiu, e certamente não sou eu. Realmente isso está mais do que morto. Nisso você tem razão e olha que um cara bigodudo já havia alertado vocês tempos atrás.”
“Você quer dizer Nietzsche?”
“Vocês o chamavam assim, mas foi uma de minhas melhores criações, eu o criei como Bigodão0000000000000000000000000000000000000000000001”
“Afinal de contas quem é você, o que faz? Tenho tantas perguntas para fazer? De onde viemos e para onde vamos?”
“Vocês vieram de dentro de mim. Eu solto um gás, a que chamam de alma, este gás se materializa e pronto, ai estão vocês, livres, leves e soltos como o ar que respiram.”
“Poxa, quer dizer que somos como peidos divinos”
“Se quer entender assim, que seja.”
“E para onde vamos, quando morremos?”
“Ué, quando morrem a matéria se dissolve e o gás volta para onde veio.”
“Então não existe céu ou inferno?”
“Ahaahahahahah, que isso, eu não sou imbecil a este ponto. Isso de certo ou errado, punir ou agradar, é tudo coisa que vocês, meus queridos balões de gás, inventaram para de alguma forma não se matarem uns aos outros”
“Poxa que bom então, quer dizer que tudo é permitido, como Dostoievski dizia.”
“Depende, sabe que há leis ai no seu mundo, você acabaria em uma prisão Tiago, sabe que as coisas ai não são tão liberais assim.”
“É mesmo. Mas e o amor, a verdade, a justiça, todos estes valores, o bem. O que me diz sobre tudo isso?”
“A mesma coisa, nada a ver comigo. Isso é coisa de vocês, pois sem isso, sem estas regras não se suportariam um único minuto, acabariam se matando. Como todo gás vocês são extremamente instáveis, mas como carregam uma essência especial de minha inteligência acabaram se tornando gases mais inteligentes, no início tinham mais pelos, um crânio e maxilar maiores, viviam soltos e completamente livres, mal falavam coisa com coisa, e olha, eram mais felizes assim, mas ai um curió começou a se alimentar de carne e ai deu no que deu, evoluíram, como dizia a minha criação Barba00000000000000000000000000000000000000000001”
“Poxa, quer dizer Darwin”
“Era assim como chamavam, ele já dizia isso, mas vocês insistem em inventar coisas, o que é típico de gases instáveis”
“Nossa, está na hora de eu desligar o telefone e ir trabalhar. Tenho aula as nove da manhã.”
“É professor de História e Filosofia você.”
“Sim, claro.”
“Coitado, como consegue viver com este salário? Eu com todo meu poder não saberia o que fazer com R$ 950,00.”
“Peraí, mas eu nem ganho isso ainda. O governo está discutindo com os governadores sobre a implantação do piso salarial nacional.”
“Nem chega a isso o seu salário? E eu reclamando de solidão. Prefiro a solidão da eternidade que isso.”
“Não tem como o senhor intervir a nosso favor, use seus poderes contra essa gente exploradora.”
“Mas ai a minha diversão ia acabar.”
“O senhor se diverte com isso? Nós sofremos e você se diverte.”
“É”
“Mas por que?”
“Eu não tenho muito o que fazer, então acho bacana curtir o comportamento de vocês, gases instáveis, nunca se esqueça. A instabilidade de vocês, seus conflitos, tudo isso é que dá sentido a minha existência, sem isso a monotonia eterna acabaria me matando, já pensei até em suicídio algumas vezes.”
“Tu é mal então”
“Não, não. Isso é coisa de vocês. Nada de bem ou mal para cima de mim.”
“Aqui, uma última coisa. Quem será o próximo presidente do Brasil? Tem alguma idéia?”
“Se depender de mim, para minha diversão eterna, será o Fernando Haddad!”
“NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!”


Acordo de meu sono alucinógeno, o efeito das drogas passou. Olho pro lado e lá está “Para Além do Bem e do Mal – Friedrich Nietzsche”, abro um sorriso e digo para mim mesmo “graças a Deus”.

terça-feira, 2 de junho de 2009

MATRIX RELOADED - ESTÉTICA, ÉTICA E CONSUMO


Cine Pampulha (ano de 2003), meio-dia, uma fila imensa reúne jovens, crianças, adultos e idosos. Daqui a meia hora será exibida, pela primeira vez (espécie de avant premier) o filme "Matrix Reloaded" - segundo filme da aclamada trilogia dos diretores e irmãos Wachowski (baseados na obra Simulacro e Simulações do filósofo francês Jean Baudrillard).
Estou na fila, como os outros, ansioso por saber como o protagonista Neo (Keanu Reeves) irá libertar os seres humanos da vida simulada pela Matrix (espécie de IA, programa de computador, que aliena a vida humana para que estes, submissos, possam ser devorados/como alimento por um mundo dominado e realmente vivenciado por máquinas). E claro, ávido pela já comentada luta entre o protagonista e seu antagonista Agente Smith (Hugo Weaving) multiplicado em milhares de cópias.
Fazia um calor terrível, a fila para compra de ingressos andava a curtos passos, e eu já suava pela mistura da alta temperatura e ansiedade.
De repente uma figura adentra a enorme fila, chamando a atenção de muitos para si: um adolescente, em pleno sol do meio-dia, vestido com um largo e imponente sobretudo negro (assim como os complementos de toda a vestimenta), óculos escuros, cabelos com gel, botas. Estaria em nossa presença o protagonista "Neo"? Sim.
A resposta afirmativa é fruto de que ali, naquela fila de cinema, estava o personagem materializado em termos de mercadorias. Afinal, qual a motivação de se comprar um sobretudo negro em pleno calor brasileiro, e usá-lo ao meio-dia? Qual a motivação de se comprar botas para ir ao cinema, e pior, ir ao cinema portando óculos escuros? Aquele adolescente quer ser o "Neo", e para isso o que tivera que fazer? Consumir!
Em torno da obra cinematográfica "Matrix Reloaded" giram uma infinidade de mercadorias que vão do simples ingresso de cinema até ao sobretudo negro comprado pelos pais de um adolescente em estado de HIPNOSE-CULTURAL. Passada a onda hipnótica (e elas sempre passam, e muito rápido) fico imaginando aonde estará este sobretudo negro? Provavelmente em um lugar sombrio - o fundo de um armário (espécie de lixeira moderna).
Percebemos então como é tênue a relação ESTÉTICA/ÉTICA/CONSUMO realizando uma tríade muito poderosa a serviço da reprodução da engrenagem sócio-econômica hegemônica. Tomemos, com mais profundidade, o exemplo da obra "Matrix Reloaded":
Neo-Protagonista-Keanu Reeves APELO ESTÉTICO
Sobretudo negro, botas, óculos escuros (inclusive com uso noturno) APELO ESTÉTICO
Qualidades (elementos de sedução e convencimento)do Protagonista da obra como Força, Velocidade, Inteligência, Liderança, Sensualidade, Coragem APELO ÉTICO (SEJA COMO NEO - BOM É SER COMO O NEO - SE VOCÊ NÃO É COMO O NEO VOCÊ ESTÁ SENDO UM LOSER)
Criação das chamadas PSEUDO-NECESSIDADES: COMPRAR INGRESSO DE CINEMA, BOTAS, ÓCULOS ESCUROS, SOBRETUDO NEGRO, GEL PARA CABELO, AULAS DE ARTES MARCIAIS, DVD DO FILME, CD COM TRILHA SONORA DO FILME, CAMISETAS COM PERSONAGENS DO FILME, CADERNOS COM PERSONAGENS DO FILME, LIVROS E REVISTAS QUE TENHAM COMO TEMÁTICA ELEMENTOS DO FILME, PROGRAMAS DE TELEVISÃO QUE APRESENTEM ELEMENTOS DO FILME COMO ENTREVISTAS, REPORTAGENS, ESPECIAIS, DEBATES, CRÍTICAS - APELO AO CONSUMO.
Logo tem-se a REPRODUÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA do modus vivendi hegemônico!
E o que fazer quando a onda hipnótica se esvair com o tempo, porque como pseudo-necessidade ela tem por essência a instantaneidade? A indústria cultural reaparece na vida do indivíduo sob novas formas, dentro da tríade estética/ética/consumo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

HUMOR ATEÍSTA

Semanas atrás lancei no portal de Filosofia do amigo Paulo Ghiraldelli uma série de imagens, cartoons, retratando, com bom humor, a ideia do ateísmo até como resposta ao pedantismo de muitos religiosos que nos sufocam com seu conservadorismo.
Creio que é o melhor remédio contra essa gente, que faz uso da religião como mecanismo de separação, dominação, intolerância, perante aqueles que acreditam em outros elementos fenomenológicos ou os que simplesmente nada acreditam.
As imagens fizeram relativo sucesso, e não posso deixar de citar a fonte das imagens, inclusive citado e linkado (com banner ilustrativo) ai ao lado, o site http://www.ateus.net










terça-feira, 19 de maio de 2009

O ESPETÁCULO DEBORDIANO

Gostaria de agradecer ao povo da cidade mineira de São João Evangelista, onde estive nos últimos três dias - pela simplicidade, hospitalidade, recebendo o amigo professor.
São João Evangelista se localiza no nordeste de Minas Gerais (micro-região do rio Doce), em direção ao estado do Espírito Santo, a 270 km de Belo Horizonte.
Estive na Escola Federal Agrotécnica de lá, que atende a cerca de 800 estudantes de nível médio, onde são preparados para o mercado de trabalho através do ensino profissionalizante (como de Sivicultura, Nutrição, Informática).
Lá em São João também tive a oportunidade de conhecer gente bacana, como o historiador Daniel (que dá aulas de História para os marinheiros do Espírito Santo), a nutricionista Paula (que atua em Pouso Alegre), e outros que fizeram do último final de semana uma experiência rica e agradável.

GUY DEBORD E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO
Debord foi um filósofo e cineasta francês, atuante nas agitações conhecidas como "maio de 68", e em sua produção intelectual destacamos o conceito de "sociedade do espetáculo", apresentado em 1967 na obra que leva o mesmo nome (e também em filme de 1973, de mesmo nome).
Em "A Sociedade do Espetáculo" Debord escreve de maneira livre, em aforismos (como Nietzsche fazia no século 19), e nestes ele aponta o que vem a ser o espetáculo: quando as relações humanas são permeiadas, mediadas, por imagens. Além disso Debord aponta o espetáculo como fenômeno produzido e reproduzido pelo modus vivendi capitalista, pelo sistema, a ponto de ser o espetáculo uma espécie de acumulação tal de capital que este é tornado imagem (vide publicidade, arte, meios de comunicação, indústria cultural).
Não há como fugir da relação entre o espetáculo debordiano e o conceito de alienação (já preconcebido por Karl Marx em obras como os Manuscritos Econômico-Filosóficos), visto que as relações humanas, midiatizadas, espetacularizadas, são relações reificadas (onde os seres humanos são tomados como objetos e não mais como sujeitos).
Citando o filósofo:
"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. Em relação ao homem que age, a exterioridade do espetáculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que os representa por ele. É por isso que o espectador não se sente em casa em lugar algum, pois o espetáculo está em toda parte (...) O espetáculo na sociedade corresponde a uma fabricação concreta da alienação. A expansão econômica é sobretudo a expansão dessa produção industrial específica. O que cresce com a economia que se move por si mesma só pode ser a alienação que estava em seu núcleo original. O homem separado de seu produto produz, cada vez mais e com mais força, todos os detalhes de seu mundo. Assim vê-se cada vez mais separado de seu mundo. Quanto mais sua vida se torna seu produto, tanto mais ele se separa da vida. O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem."
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo - comentários sobre a sociedade do espetáculo. trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: ed. Contraponto, 1997. p. 24-25.
O que é o homem separado do seu produto, e por consequência, separado de si mesmo? O trabalhador, o proletário, que é levado pelo sistema capitalista a vender-se, a vender a sua força de trabalho, em troca de um salário. É o homem que não possui mais uma relação subjetiva com seu trabalho, visto que este não mais lhe pertence, mas pertence ao burguês que o compra, e que lucra com este pelas vias da mais-valia (já que o produto do trabalho do trabalhador vale mais que o salário recebido por este, gerando lucros para os que lhe dominam e escravizam).
Ou seja, o capitalismo impõe aos homens um mundo de supervalorização do mercado e do objeto (das mercadorias). Aos seres humanos suas necessidades e suas pseudonecessidades (termo debordiano) só podem ser satisfeitas pela aquisição de mais e mais mercadorias no mercado, nunca fora deste, eliminando todas as formas de subsistência. E o que faz o espetáculo?
O espetáculo está ai para nos impor a reprodução desta ordem, nos impor uma certa paralisia, uma passividade perante um mundo dominado por objetos e mercadorias (estas sim vivas, afirmando-se enquanto fetiche). É a televisão, a publicidade, a indústria cultural (empregando termo frankfurtiano), as imagens que nos impõem: compre, compre, compre, ter, ter, ter, só assim será feliz...sua vida não será digna de ser vivida se não tiver um carro veloz como um tigre, um sabão que limpa como ninguém (ode a uma vida clean, quase higienizada), o amaciante que deixa a sua roupa mais leve, o aparelho que faz suco e lhe garantirá uma vida saudável, o desodorante que fará as mulheres gozarem só de cheirá-lo, a pasta de dentes que deixará o seu sorriso uma coisa irresistível, a margarina saborosa e saudável que reúne a família de manhã para um café feliz e radiante, etc.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

DIA INTERNACIONAL DO TRABALHO - COMEMORAR O QUÊ?




Neste dia Internacional do Trabalho nunca é demais lembrar a atual conjuntura sócio-econômica: de desemprego desenfreado!
Aqui em Minas Gerais setores dos mais diversos de nossa economia, desde montadoras a siderúrgicas, estão semanas após semana demitindo milhares de trabalhadores - jogados no triste lamaçal da inatividade forçada e sofrendo toda uma série de problemáticas causadas pela situação de desemprego: discussões em família pela perda da renda, sentimento de culpa por estar sem trabalho, descontrole financeiro com a aquisição forçada de empréstimos a juros altos ou mesmo com gastos em cartões de crédito (muitas vezes única saída de consumo, visto que a renda se esvaiu), inadimplência e desgaste emocional por seguidas cobranças de perversas instituições financeiras.

O desemprego, e poucos se lembram deste detalhe fundamental, é condição sine qua non do Capitalismo, forçando os trabalhadores a vender, a um preço cada dia mais barato, a sua força de trabalho - se fóssemos pensar em um ideal capitalista chegaríamos a situação de uma massa trabalhadora realizando tarefas em troca da simples sobrevivência, o salário de pura subsistência de forma a manter o corpo do trabalhador vivo, capaz de trabalhar, e só.
Os leitores podem me acusar de "marxista", mas não há como negar, não há melhor autor que compreendera os mecanismos capitalistas senão o filósofo alemão Karl Marx, mesmo que o projeto político-social do mesmo não tenha se mostrado válido na vida prática (e o século XX demonstrou isso).
Neste triste dia Internacional do Trabalho, em meio a uma crise sem tamanho (ao contrário do que vislumbrava o jumento que governa este país), não seria demais rememorar a importância de Karl Marx como analista de parte do que assistimos nos presentes dias.
O mercado mundial está ai, a despossessão dos trabalhadores está ai (ou o amigo leitor não precisa de salário ou mesmo vender a sua força de trabalho?), as desigualdades sociais e a divisão em classes está ai, o exército de reserva está ai em nossas ruas (homens e mulheres com currículos nas mãos, em filas gigantescas, submetendo-se a inúmeros processos seletivos e a critérios surreais de seleção, entrevistas e mais entrevistas. Engenheiros, publicitários, jornalistas, administradores, advogados, psicólogos, aceitando salário mínimo e subemprego), a alienação está ai e a idolatria as mercadorias está mais vivente entre nós do que nunca, provocando fetichismo desenfreado.

Me aborrece ver que parte das centrais sindicais deste país, organizações de trabalhadores e movimentos sociais, ficam realizando festas, shows, eventos, que mais parecem um verdadeiro circo a céu aberto ao invés de mostrar a cara e fazer o que deveríamos nós, brasileiros, fazer - protestar! Questionar o protecionismo de Estados e governos em defender instituições financeiras gananciosas e especuladoras ao contrário de lutar pela preservação de trabalhos e pela qualidade de vida dos trabalhadores. Por que será que em meio a tantos problemas macroeconômicos, no mundo todo, bancos brasileiros como o Bradesco anunciam lucros recordes? Por que quando a poupança nacional volta a se fortalecer com a queda (mesmo assim tímida) da taxa de juros o governo nacional quer atuar de maneira a combater a valorização desta? Não nos enganemos, o que governa o mundo não são os Estados Nacionais (enfraquecidos e sem nenhuma autonomia) mas o Grande Capital, materializados nas instituições financeiras, empresas transnacionais, aglomerados industriais e grandes companhias.

Por isso, neste primeiro dia de maio, só me resta lamentar pela sorte de todos os trabalhores do nosso mundo.