domingo, 26 de julho de 2009

DELIVERY BABIES!


Estamos em 2039, PT e PSDB já haviam se fundido em um único partido (o PTO - Partido do Tucano Operário), a família Sarney ainda mandava no estado do Maranhão, a Copa do Mundo de 2038 (realizada entre dois países - Venezuela e Equador) fora vencida pela seleção holandesa pela primeira vez, e aqui em Belo Horizonte, em pleno centro da cidade um casal de jovens se dirige a um de nossos renomados hospitais (não ligados ao Sus, que ainda permanece caótico, onde para a realização de uma cirurgia cardíaca a espera é de quase 1 ano). Após a assinatura de uma extensa papelada burocrática, se dirigem ao consultório do Dr. Augusto Continha, especializado em reprodução humana (após 10 anos de bolsa de estudos em universidade federal).

Boa tarde, o que traz o jovem casal ao meu consultório?
Bom, vimos na televisão que o doutor é um dos poucos especialistas em neo-reprodução aqui em BH, e sabe como é, ficamos animados e aqui estamos..

Ok, então o casal quer ter filhos, é isso.
Sim, claro, este sempre foi o sonho do Armandinho.
Claro né amor (se beijam).

Sabem como é o procedimento?
Mais ou menos, dá para o doutor deixar isso mais claro pra gente?

Pois bem. Precisamos primeiro recolher o material. Quem vai doar um fio de cabelo do escroto?
Ah, pode ser o Armandinho mesmo.

Então, sr. Armando, pode se dirigir a saleta ao lado e fazer a coleta do material. E lembre-se, recolha os fios do escroto, mas antes lave o local com água e sabão.

Armandinho volta e entrega o potinho, lacrado, para o dr. Augusto Continha.
E agora dr?

Então, a previsão de entrega é de duas semanas. Vocês podem vir pegar a criança de vocês aqui mesmo no hospital, no setor de entregas. Contudo, pagando um poquinho mais podemos fazer a entrega a domicílio. De brinde levam um bercinho e um travesseiro.

Agora, vamos a outros detalhes. Coletado o material, quero saber do casal quais são as escolhas de padrão genético: masculino ou feminino?
Bom, doutor, seria ótimo uma menininha em casa, afinal somos dois papais...
Ok, feminino (iniciando preenchimento de uma ficha).

Quer que a menina seja como? Tipo físico?
Como assim dr?
A menina terá porte atlético, terá obesidade, será magra, alta ou baixa, coisas assim. E claro, a etnia da criança também é fundamental.
Bom, eu e Armandinho somos branquinhos, então a menina pode ser branquinha, tipo a Angélica, lembra como era a Angélica né doutor?
Sim, sim. Caucasiana 100% (escreve).

E o tipo físico?
Ué dr, malhadinha. Bumbum rosado, olhinhos claros, boca carnudinha. Peitinhos do tipo pera.

Ótimo, ótimo. E a altura?
Bom, queremos que ela siga a profissão do Armandinho, que é de ser modelo. Então deve ser alta, tipo quase 1,90 (em 2039 os seres humanos tem em média uma altura bem maior, devido a uma alimentação artificializada, rica em genes de desenvolvimento).

Ok, e a inteligência? Temos a linguística, espacial, física, psicológica, emocional, matemático-lógica. Que vai ser? Pela profissão que estão querendo para a criança acho melhor acrescentarmos a inteligência espacial, sabem como é andar em uma passarela.
Isso doutor, que ótimo.

Então, repetindo o pedido do casal: Feminino, alta, caucasiana, inteligência espacial e corpo atlético. Confere?
Sim, sim.

Entrega em duas semanas, aqui pessoalmente ou domicílio?
Em domicílio custa quanto a mais?
Uns R$ 150,00 a mais, em média, depende de onde moram.
Ótimo, ótimo, então achamos que vale a pena.

Muito obrigado, agora se dirijam ao setor de vendas e façam o pagamento.

Armandinho e Robertinho (vulgo Melissa para os íntimos da vida noturna) vão ao guiche, sendo atendidos por uma senhora de idade.

Boa tarde, já consultaram o doutor. Estão com a ficha?
Entregam o papel com todas as informações necessárias para a encomenda mais importante de suas vidas, desde que se conheceram em uma casa noturna a uns cinco anos e começaram a dividir o mesmo apartamento meses depois, dando início a uma vida em comum, mesmo com as famílias de ambos criticando a condição de homossexualidade assumida pelos dois.

Vão pagar com o quê? Dinheiro, cheque, cartão. Se for cartão dividimos em até dez vezes sem juros.
Cartão né Armandinho? Pega ai na sua bolsa.
Pronto, minha senhora, está aqui.

Aqui, não quero me intrometer na vida de vocês, mas é o primeiro filho de vocês?
Sim, sim..

Sabe, tenho 68 anos, solteirona, e meu sonho sempre foi ter um filho. Vocês dois acham que devo fazer como vocês?
Claro, claro. É caro, mas ter um filho é tudo na vida.

Meu medo é que tenho alguns problemas de saúde, se morrer, a criança ficará praticamente sem ninguém.
Ih boba. Morrer hoje em dia é coisa de gente pobre, qual o seu problema?
Coração, as artérias estão cheias de placas de gordura, sabem como é comer junkfood quase todo dia, mas não resisto.

Ah, preocupa não senhora. Aqui, conhecemos um lugar aqui em BH que por três mil reais eles trocam o seu coração por um novo, esse negócio de morrer já caiu de moda faz tempo. O Armandinho aqui adora uísque, cachaça, sabe como é vida de quem curte a noite, vira e mexe aparece uma cirrose e ai é só trocar o fígado estragado por um novo.
Não brinca meninos? É mesmo...

Olha aqui minha tia, pega um papel que anotamos o endereço. Ai você renova as peças e depois mandar encomendar um garotinho só pra você.
Muito obrigada...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O FIM DO SEXO E DA MORTE



Em "A Ilusão Vital", obra que reúne uma diversidade de textos do filósofo francês Jean Baudrillard, é apresentada uma interessante análise a respeito da sexualidade e da morte, enquanto fenômenos que vem sendo eliminados, pouco a pouco, pelos seres humanos neste mundo pós-moderno em que estamos vivendo.

Mas, o amigo leitor pode se perguntar, com estranhamento, como eliminar da vida humana a morte e o sexo? Como isso é possível?

Em primeiro lugar é necessário definir, ou melhor, redefinir o que quero dizer com "sexo" ou "sexualidade" nesta discussão baudrillariana - mecanismo biológico de reprodução de nossa espécie, e não como atividade de prazer, mas como fisiologia humana. O sexo fisiológico, o sexo que dá continuidade a vida humana, este sim, está sendo eliminado pela humanidade ao longo das últimas décadas. Pensemos: é necessário a relação sexual entre um homem e uma mulher para a concepção de uma vida? Nem sempre. Hoje a ciência desenvolve uma série de técnicas, como a reprodução in vitro, que dispensam a atividade sexual entre duas pessoas como meio de se conceber uma vida. Exemplo disso são casais antes impossibilitados pela natureza conseguirem hoje conceber um filho, casais de lésbicas com filhos, mulheres solteiras com filhos, tudo fruto da técnica, da tecnologia, e não da carne, da relação, da interconexao de fluidos corporéos. Assim, vivemos um mundo onde é possível ser pai, sem ter a mãe, é possível ser mãe, sem ter pai. Não há genitores, mas genitor, solitário, individualizado.

A mesma técnica que elimina o sexo fisiológico também vem promovendo o fim do maior dos temores humanos: a morte. Mas, como?

A biotecnologia vem avançando, a passos largos, acima de toda discussão ética, e já produz, ou melhor, reproduz espécies - a clonagem genética, gerando cópias de um único ser. É possível hoje, em países como os Estados Unidos, pagar para clonar o seu gato ou cachorro, que por infelicidade acabara morrendo. Em breve a clonagem humana não será um tabu, mas uma realidade. Isso sem falar nas pesquisas com células tronco, que vão prolongar a vida humana de uma maneira nunca antes vista, pois toda célula poderá ser substituída por uma célula nova, saudável, como se fossemos máquinas aptas para termos nossos órgãos tratados como peças, passíveis de troca e não mais de conserto.

E quais as consequências de uma humanidade que já não se reproduz pelas vias naturais e que já não mais irá morrer, seja por clonagem ou por trocas de células (peças) danificadas por saudáveis? Baudrillard aponta para uma sociedade de intensa homogeneização, racionalização ao extremo, aonde a nossa condição humana irá se esvanecer pouco a pouco, a ponto dos seres humanos tornarem-se não mais humanos, mas deuses. Contudo, é difícil imaginar as implicações éticas, sociais e políticas em um mundo habitado não por homens, mas por deuses. Tornaremos este planeta a substancialização do monte Olimpo ou transformaremos este mesmo planeta em um mundo habitado por máquinas-humanas, estaremos um passo adiante na evolução de nossa espécie ou estaremos dando passo atrás no mecanismo evolutivo? Serão respostas, no mínimo, intrigantes e não menos perturbadoras.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

ROBERTO CARLOS: GÊNIO POÉTICO OU PERU DE NATAL GLOBAL?




Cachoeiro do Itapemirim-ES, 1959, surgia um dos maiores ídolos da música brasileira: Roberto Carlos.Agora são 50 anos de carreira completos, e então, como analisar o cantor, compositor, após décadas de sucessos, mistérios, perdas pessoais (esposas), problemas psicológicos (como o toque)? Como entender Roberto Carlos, vulgo "rei" da música nacional, uma espécie de Elvis tupiniquim? Um revolucionário ou um contra-revolucionário? Um piegas ou um genuíno poeta?

Roberto apareceu no cenário musical brasileiro em meio a onda rock'roll, que já se anunciava na América com nomes como Bill Halley, Chuck Berry, Little Richards, Jerry Lee Lewis, eespecialmente o ícone Elvis Presley. No início Roberto e o próprio movimento jovem que se organizou na televisão brasileira em torno dele (Jovem Guarda) eram uma tentativa pura e simples de reproduzir aqui o que já se fazia na América ou mesmo na Europa (inclusive muitas músicas da Jovem Guarda possuem origem em músicas italianas, como Era um garoto que como eu amava os Beattles e os Rolling Stones).

Mas como toda onda passa, esta passou, a Jovem Guarda ruiu, e vieram os anos setenta com seu psicodelismo, seu "paz e amor", a era disco, e o próprio Roberto tentou reproduzir isso no próprio visual, que depois virou marca registrada: os longos cabelos, em substituição ao cabelinho lambuzado de gel e caidinho da época da Jovem Guarda. Vieram composições mais maduras, mesmo quando o intento era o romance - "Amigo", "Jesus Cristo", "Cama e Mesa".

Roberto, avançando nos anos 80, começa a entrar em parafuso, musicalmente e pessoalmente. Vem composições ridículas como as que ele "homenageava" caminhoneiros, mulheres gordas, mulheres baixinhas. Na vida pessoal ele já demonstra um espiritualismo beirando o dogmatismo, e não é a toa que o cantor faz apresentações como na vinda de João Paulo II ao Brasil (ou em composições como Nossa Senhora). Ao mesmo tempo já começa a manifestar espasmos de superstição, maneirismos - fruto da doença psicológica do toque (usar branco nas apresentações, ter pavor a cor marrom).
Para agravar a situação Roberto Carlos sofre constantes perdas pessoais, culminando com a morte da esposa Maria Rita após anos lutando contra um câncer.

Em termos gerais Roberto Carlos pode e deve ser entendido como um grande cantor brasileiro, um grande compositor (na dupla que formou com o carioca Erasmo Carlos) e um poeta. Não foi um revolucionário, não representou o novo em nosso país, pelo contrário, representava a reprodução de modismos que eram hegemônicos mundo afora, inclusive muito se discute o seu silêncio musical durante o regime militar (1964-1985): afinal de contas, era difícil escrever "eu te amo baby" em meio a um país onde muitos jovens eram mortos, torturados, reprimidos, numa ordem política e social sufocante. Outro fator que aponta Roberto Carlos na direção da contra-revolução é a exclusividade global, que seria como assinar o pacto com o diabo (que responde pelo nome de Roberto Marinho e as Organizações Globo). Roberto Carlos se torna produto global, se torna o peru de Natal de todo o brasileiro médio (os shows de fim de ano), e isso chega a tal ponto que o dvd produzido pela MTV, chamado unpluged (ou show acústico) é vendido na praça mas proibido de ser veiculado na própria emissora que o produzira. E finalizando, a ridícula postura do cantor diante do magnífico trabalho do colega historiador Paulo César de Araújo "Roberto Carlos em Detalhes" que proibira o mesmo de vender/divulgar a obra biográfica.

Enfim, nestes 50 anos de carreira eu posso dizer de Roberto Carlos o seguinte: nota 10 como cantor e compositor, nota 0 como cidadão.

domingo, 14 de junho de 2009

ODE A JIM MORRISON


Ontem a noite assisti (Telecine Cult), novamente, e sem nunca cansar, ao clássico de Oliver Stone "The Doors" que nos remete a biografia do gênio poético-musical Jim Morrison, protagonista e vocalista da banda The Doors (As Portas, referência a obra As Portas da Percepção, de Huxley).
Morrison, falecido em Paris no ano de 1971 (vitimado por um ataque cardíaco aos 27 anos de idade - provocado por uma vida intensa, ávida, de excessos - álcool, viagens de mescalina e ácido, cocaína, nicotina, prazeres sexuais e até bruxaria ou ocultismo) é daqueles ícones criados nos loucos (e sempre criativos) anos sessenta, dentro da chamada contracultura (ele mesmo dizia fazer uma música de ruptura).
Repasso aos leitores e amigos a tradução do que considero a sua obra-prima "The End" ou "O Fim", utilizada inclusive no cinema como parte da trilha sonora de Apocalypse Now (filme sobre a guerra do Vietnã, estrelado por Marlon Brando):
"(...) my only friend - the end (...)" Inesquecível!

Este é o fim Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos...de novo
Voce pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente...de alguma...mão de estranho
Numa terra desesperada?

Perdido numa romana...selva de dor
E todas as crianças estão loucas
Todas as crianças estão loucas
Esperando a chuva de verão, sim
Tem perigo no extremo da cidade
Passeie pela estrada do rei, bem
Cenas estranhas dentro da mina de ouro
Passeie pela estrada do este, bem
Passeie pela serpente, passeie pela serpente
Para o lago, o antigo lago, bem
A serpente é longa, sete milhas (11 km)
Passeie pela serpente… Ela é velha e sua pele é gelada
O oeste é o melhor
O oeste é o melhor
Vá lá, e nós faremos o resto
O ônibus azul está nos chamando
O ônibus azul está nos chamando
Motorista, aonde está nos levando?

O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas
Ele tirou uma foto da antiga galeria
E andou pelo corredor
Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e...então ele
Pagou a visita a seu irmão, e então ele
Ele andou pelo corredor, e
E ele veio até a porta...e ele olhou para dentro
"Pai?", "Sim filho?", "Eu quero te matar."
"Mãe...Eu quero...te foder."

Venha bem, tente conosco (3x)
E me encontre atrás do ônibus azul
Fazendo um foguete azul, No ônibus azul
Fazendo um rock triste, vamos, sim
Matar, matar, matar, matar, matar, matar

Este é o fim, belo amigo
Este é o fim, meu único amigo, o fim
Dói te libertar
Mas você nunca vai me seguir
O fim da gargalhada e das mentiras suaves
O fim das noites que tentávamos morrer
Este é o fim

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Deus ao Telefone!

São seis da manhã, toca o telefone.
“Alô” (com voz suave, de tanto sono).
“Sou eu” (com uma voz grave, quase cavernosa).
“Eu quem? Sabe que horas são amigo?!”
“Claro, pois foi eu que criei o tempo”.
“Ta bom, preciso dormir. Daqui a pouco tenho que levantar e dar aula, não enche o saco meu irmão”.

Desligo o telefone.

Minutos depois, novo toque.
“Alô!!” (já nervoso com aquilo).
“Acho que não fui muito claro com você. Sou eu.”
“Eu quem? Fala sério amigo, é cedo para ficar de papo furado”.
“Eu sou o eu. Sou o hoje, amanhã e depois. Eu sou o teu criador.”
“Ah amigo, você acha que eu vou cair num trote desses? Tu deve ser algum aluno meu querendo fazer hora com a minha cara. Como conseguiu o meu telefone ein, se eu descobrir tu vai se foder direitinho.”
“Pelo visto não haverá outro jeito de você me dar a sua atenção senão provar-lhe a minha real existência. Pois bem, está vendo este copo de água ai ao lado de sua cama? Pois conte até cinco e diga abracadabra.”
“Ah bom, vamos ver então...um, dois, três, quatro e cinco - abracadabra!”
“Agora veja”.
“Puta que o pariu! Como conseguiu fazer isso?” (o copo antes com água se encheu de líquido avermelhado, grosso).
“Agora beba”.
“Ta bom” (já assustado e também curioso).
“Poxa! É vinho.”
“Claro, pelo jeito não conhece um de meus truques favoritos, vocês mesmos já escreveram sobre isso num livrinho antigo. Uma de minhas mais brilhantes criações fez isso a milhares de anos atrás.”
“Peraí. Aqui, quer dizer então que tu é Deus?”
“Bom, já que me chamam assim, digamos que sim.”
“E que você quer comigo?”
“Sei lá, bater um papo. Ando meio solitário.”
“Solitário? Com tantos adoradores, crentes, seguidores, místicos, guerreiros, sacerdotes, toda esta turma vivendo em função de vossa pessoa, como dizer que é só.”
“Não, não. Eu não suporto essa gente. Ficam me pedindo, pedindo, imagine se eu fosse escutar e atender todo mundo. E outra, ficam brigando achando que me conhecem quando na verdade nem sabem o que sou, como sou, o que penso ou faço. São todos uns babacas. Você é diferente Tiago, você nunca me pediu nada, você nunca esperou nada de mim e nem está nem ai para mim.”
“É, eu sempre digo para colegas e alunos que você morreu.”
“Mas eu morri mesmo, aliás eu nunca existi.”
“Vixi, ta complicada a conversa, como assim?”
“Isso a que chamam Deus não existe, nunca existiu, e certamente não sou eu. Realmente isso está mais do que morto. Nisso você tem razão e olha que um cara bigodudo já havia alertado vocês tempos atrás.”
“Você quer dizer Nietzsche?”
“Vocês o chamavam assim, mas foi uma de minhas melhores criações, eu o criei como Bigodão0000000000000000000000000000000000000000000001”
“Afinal de contas quem é você, o que faz? Tenho tantas perguntas para fazer? De onde viemos e para onde vamos?”
“Vocês vieram de dentro de mim. Eu solto um gás, a que chamam de alma, este gás se materializa e pronto, ai estão vocês, livres, leves e soltos como o ar que respiram.”
“Poxa, quer dizer que somos como peidos divinos”
“Se quer entender assim, que seja.”
“E para onde vamos, quando morremos?”
“Ué, quando morrem a matéria se dissolve e o gás volta para onde veio.”
“Então não existe céu ou inferno?”
“Ahaahahahahah, que isso, eu não sou imbecil a este ponto. Isso de certo ou errado, punir ou agradar, é tudo coisa que vocês, meus queridos balões de gás, inventaram para de alguma forma não se matarem uns aos outros”
“Poxa que bom então, quer dizer que tudo é permitido, como Dostoievski dizia.”
“Depende, sabe que há leis ai no seu mundo, você acabaria em uma prisão Tiago, sabe que as coisas ai não são tão liberais assim.”
“É mesmo. Mas e o amor, a verdade, a justiça, todos estes valores, o bem. O que me diz sobre tudo isso?”
“A mesma coisa, nada a ver comigo. Isso é coisa de vocês, pois sem isso, sem estas regras não se suportariam um único minuto, acabariam se matando. Como todo gás vocês são extremamente instáveis, mas como carregam uma essência especial de minha inteligência acabaram se tornando gases mais inteligentes, no início tinham mais pelos, um crânio e maxilar maiores, viviam soltos e completamente livres, mal falavam coisa com coisa, e olha, eram mais felizes assim, mas ai um curió começou a se alimentar de carne e ai deu no que deu, evoluíram, como dizia a minha criação Barba00000000000000000000000000000000000000000001”
“Poxa, quer dizer Darwin”
“Era assim como chamavam, ele já dizia isso, mas vocês insistem em inventar coisas, o que é típico de gases instáveis”
“Nossa, está na hora de eu desligar o telefone e ir trabalhar. Tenho aula as nove da manhã.”
“É professor de História e Filosofia você.”
“Sim, claro.”
“Coitado, como consegue viver com este salário? Eu com todo meu poder não saberia o que fazer com R$ 950,00.”
“Peraí, mas eu nem ganho isso ainda. O governo está discutindo com os governadores sobre a implantação do piso salarial nacional.”
“Nem chega a isso o seu salário? E eu reclamando de solidão. Prefiro a solidão da eternidade que isso.”
“Não tem como o senhor intervir a nosso favor, use seus poderes contra essa gente exploradora.”
“Mas ai a minha diversão ia acabar.”
“O senhor se diverte com isso? Nós sofremos e você se diverte.”
“É”
“Mas por que?”
“Eu não tenho muito o que fazer, então acho bacana curtir o comportamento de vocês, gases instáveis, nunca se esqueça. A instabilidade de vocês, seus conflitos, tudo isso é que dá sentido a minha existência, sem isso a monotonia eterna acabaria me matando, já pensei até em suicídio algumas vezes.”
“Tu é mal então”
“Não, não. Isso é coisa de vocês. Nada de bem ou mal para cima de mim.”
“Aqui, uma última coisa. Quem será o próximo presidente do Brasil? Tem alguma idéia?”
“Se depender de mim, para minha diversão eterna, será o Fernando Haddad!”
“NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!”


Acordo de meu sono alucinógeno, o efeito das drogas passou. Olho pro lado e lá está “Para Além do Bem e do Mal – Friedrich Nietzsche”, abro um sorriso e digo para mim mesmo “graças a Deus”.

terça-feira, 2 de junho de 2009

MATRIX RELOADED - ESTÉTICA, ÉTICA E CONSUMO


Cine Pampulha (ano de 2003), meio-dia, uma fila imensa reúne jovens, crianças, adultos e idosos. Daqui a meia hora será exibida, pela primeira vez (espécie de avant premier) o filme "Matrix Reloaded" - segundo filme da aclamada trilogia dos diretores e irmãos Wachowski (baseados na obra Simulacro e Simulações do filósofo francês Jean Baudrillard).
Estou na fila, como os outros, ansioso por saber como o protagonista Neo (Keanu Reeves) irá libertar os seres humanos da vida simulada pela Matrix (espécie de IA, programa de computador, que aliena a vida humana para que estes, submissos, possam ser devorados/como alimento por um mundo dominado e realmente vivenciado por máquinas). E claro, ávido pela já comentada luta entre o protagonista e seu antagonista Agente Smith (Hugo Weaving) multiplicado em milhares de cópias.
Fazia um calor terrível, a fila para compra de ingressos andava a curtos passos, e eu já suava pela mistura da alta temperatura e ansiedade.
De repente uma figura adentra a enorme fila, chamando a atenção de muitos para si: um adolescente, em pleno sol do meio-dia, vestido com um largo e imponente sobretudo negro (assim como os complementos de toda a vestimenta), óculos escuros, cabelos com gel, botas. Estaria em nossa presença o protagonista "Neo"? Sim.
A resposta afirmativa é fruto de que ali, naquela fila de cinema, estava o personagem materializado em termos de mercadorias. Afinal, qual a motivação de se comprar um sobretudo negro em pleno calor brasileiro, e usá-lo ao meio-dia? Qual a motivação de se comprar botas para ir ao cinema, e pior, ir ao cinema portando óculos escuros? Aquele adolescente quer ser o "Neo", e para isso o que tivera que fazer? Consumir!
Em torno da obra cinematográfica "Matrix Reloaded" giram uma infinidade de mercadorias que vão do simples ingresso de cinema até ao sobretudo negro comprado pelos pais de um adolescente em estado de HIPNOSE-CULTURAL. Passada a onda hipnótica (e elas sempre passam, e muito rápido) fico imaginando aonde estará este sobretudo negro? Provavelmente em um lugar sombrio - o fundo de um armário (espécie de lixeira moderna).
Percebemos então como é tênue a relação ESTÉTICA/ÉTICA/CONSUMO realizando uma tríade muito poderosa a serviço da reprodução da engrenagem sócio-econômica hegemônica. Tomemos, com mais profundidade, o exemplo da obra "Matrix Reloaded":
Neo-Protagonista-Keanu Reeves APELO ESTÉTICO
Sobretudo negro, botas, óculos escuros (inclusive com uso noturno) APELO ESTÉTICO
Qualidades (elementos de sedução e convencimento)do Protagonista da obra como Força, Velocidade, Inteligência, Liderança, Sensualidade, Coragem APELO ÉTICO (SEJA COMO NEO - BOM É SER COMO O NEO - SE VOCÊ NÃO É COMO O NEO VOCÊ ESTÁ SENDO UM LOSER)
Criação das chamadas PSEUDO-NECESSIDADES: COMPRAR INGRESSO DE CINEMA, BOTAS, ÓCULOS ESCUROS, SOBRETUDO NEGRO, GEL PARA CABELO, AULAS DE ARTES MARCIAIS, DVD DO FILME, CD COM TRILHA SONORA DO FILME, CAMISETAS COM PERSONAGENS DO FILME, CADERNOS COM PERSONAGENS DO FILME, LIVROS E REVISTAS QUE TENHAM COMO TEMÁTICA ELEMENTOS DO FILME, PROGRAMAS DE TELEVISÃO QUE APRESENTEM ELEMENTOS DO FILME COMO ENTREVISTAS, REPORTAGENS, ESPECIAIS, DEBATES, CRÍTICAS - APELO AO CONSUMO.
Logo tem-se a REPRODUÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA do modus vivendi hegemônico!
E o que fazer quando a onda hipnótica se esvair com o tempo, porque como pseudo-necessidade ela tem por essência a instantaneidade? A indústria cultural reaparece na vida do indivíduo sob novas formas, dentro da tríade estética/ética/consumo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

HUMOR ATEÍSTA

Semanas atrás lancei no portal de Filosofia do amigo Paulo Ghiraldelli uma série de imagens, cartoons, retratando, com bom humor, a ideia do ateísmo até como resposta ao pedantismo de muitos religiosos que nos sufocam com seu conservadorismo.
Creio que é o melhor remédio contra essa gente, que faz uso da religião como mecanismo de separação, dominação, intolerância, perante aqueles que acreditam em outros elementos fenomenológicos ou os que simplesmente nada acreditam.
As imagens fizeram relativo sucesso, e não posso deixar de citar a fonte das imagens, inclusive citado e linkado (com banner ilustrativo) ai ao lado, o site http://www.ateus.net