sábado, 13 de dezembro de 2008

HISTORICISMO

Nos últimos vídeos venho apresentando, de certa maneira, detalhes da dita "Historiografia", assim como eminentes colegas historiadores como o egípcio Eric Hobsbawm e o francês Jacques Le Goff, e a partir disso recebi um comentário no youtube que me agradece por reconhecer a importância do Marxismo para a historiografia visto que a historiografia presente tem por hábito desqualificar qualquer manifestação marxista devido ao seu caráter ideológico.
O Marxismo não pode ser renegado, nem endeusado. Ele tem o seu devido lugar, a sua importância histórica como marco da historiografia do século XX principalmente. Ele, junto com a chamada Nova História criada por intelectuais franceses no período entre-guerras (décadas de 20, 30), foram importantes pontos de ruptura, radical, com a lógica predominante do século XIX (também já apresentada em vídeo-aula) do Historicismo-Positivismo.

A VELHA LÓGICA HISTORIOGRÁFICA - HISTORICISMO
Aqui a História possui um sentido teleológico (tendo uma função, uma razão), pois ela existe independente da ação humana, sendo uma entidade metafísica (no sentido hegeliano do termo). Cabia aos historiadores, a partir de rebuscado trabalho metodológico (leia-se recolhimento de dados), dar voz a própria História - que "falava" por ela mesma - chegando até a anunciar o futuro (buscava-se o passado como ensinamento da História e prognóstico do que a mesma já anunciava para o porvir)!
Do positivismo ela herdava a preocupação extremada com a objetividade, com uma espécie de necessário distanciamento entre historiador/sujeito e objeto/conhecimento histórico (representado por toda forma de documentação histórica, de fontes históricas). Objetividade marcada pelo desenvolvimento científico criado na modernidade, que estabelecera uma certa preponderância das ciências ditas exatas sobre as demais, como as humanidades - que passaram a ser entendidas como "ciência" a partir de características presentes em todas as ciências exatas (empiria, experimentação, busca por leis constituintes/universais).
Lendo (e apegando-se) a documentação produzida pelas sociedades ao longo da história percebe-se que muito do que fora produzido tem sua origem ligada ao Estado, aos governantes, ao mundo político, sendo a sociedade civil, os movimentos populares, as pessoas comuns, as mulheres, renegadas pelo que se conveniou chamar de "História Oficial". E pelo uso objetivo da documentação histórica pelos historiadores (buscando nestas dar voz a História enquanto espírito universal, enquanto entidade metafísica independente das ações humanas) acabaram estes mesmos profissionais privilegiando uma produção historiográfica marcada pela História Política, pela abordagem dos homens do poder: são guerreiros conquistadores, reis, imperadores, senadores, patrícios, políticos, líderes carismáticos, poderosos e ricos, que irão de certa maneira "fazer a História".
São obras em que os fatos se desenrolam, continuamente, tendo como personagens principais aqueles que faziam, de cima para baixo, a roda da História se movimentar. Daí para a criação de heróis nacionais foi um passo muito rápido, e daí para o estabelecimento de datas marcantes foi outro passo rápido. Ou seja, o Historicismo-Positivismo criou uma historiografia recheada de personagens, oriundos das camadas privilegiadas ou poderosas, de fatos ligados a estes mesmos personagens e seus atos (basta lembrar do conhecido exemplo tupiniquim do Grito as Margens do Rio Ipiranga, onde Dom Pedro I montado em imponente cavalo libertou o Brasil de Portugal - estabelecendo-se mitos), e de uma série interminável de datas relacionadas a estes mesmos personagens e fatos históricos - tudo pela via da documentação oficial, apenas apurada e reproduzida pelos historiadores (meros porta-vozes da História Universal).

Assim chegamos a seguinte equação produzida pelo Historicismo-Positivismo:

DOCUMENTAÇÃO OFICIAL (FONTE) - HISTORIADOR OBJETIVO/POSITIVISMO
+
HISTÓRIA - SENTIDO TELEOLÓGICO/HEGELIANISMO/VOZ PRÓPRIA E AUTONOMIA
+
VALORIZAÇÃO DOS HOMENS DO PODER (SUJEITO HISTÓRICO) - MUNDO POLÍTICO
+
FATOS - LIGADOS AOS HOMENS DO PODER
+
DATAS - LIGADAS AOS FATOS E HOMENS DO PODER

EXEMPLO: DOM PEDRO I LIBERTOU O BRASIL DE PORTUGAL EM 1822, APÓS O GRITO AS MARGENS DO RIO IPIRANGA (Dom Pedro I é mitologizado)

COMUNIDADE NO ORKUT - ENTRE E PARTICIPE!

Finalmente um novo espaço para debatermos as minhas idéias, os meus vídeos do youtube, portanto anote ai caro amigo/aluno virtual:
COMUNIDADE DO ORKUT (procure por): HISTORIADOR TIAGO MENTA
ou acesse o link abaixo
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=51565632

Abraços a todos, professor Tiago Menta

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

CAMPANHA: INVESTINDO NUMA HISTÓRIA SEM FRONTEIRAS

Amigos e amigas, desde o início deste ano venho postando vídeo-aulas de História no Youtube, a partir de um trabalho voluntarioso, solitário, em meu modesto escritório (que se encontra em um dos cômodos de minha casa).
Os vídeos são produzidos por uma webcam D-Link que já venho fazendo uso a mais de 2 anos, e já posso reparar que a qualidade visual, técnica, de meus vídeos muitas vezes deixa a desejar (um pouco escuro, um foco ruim, dando a impressão de uma imagem mais suja).
Diferente do amigo Ghiraldelli, professor e escritor consagrado, que tem por detrás a estrutura de um Centro de Estudos (o CEFA), sou meio "Don Quixote", fazendo os vídeos com limitações técnicas e levando tudo na raça, com o duro trabalho de ser um educador de escola pública em nosso país (e com todos os problemas salariais que isso acarreta).
Sozinho hoje não tenho meios de comprar uma nova e moderna webcam, e assim quero aqui lançar a CAMPANHA DE DOAÇÕES, onde você que curte os meus vídeos, que defende a minha idéia de uma educação à distância de qualidade, doe um único realzinho (R$ 1,00) para a Conta Corrente BRADESCO - AGÊNCIA 2416-3, CONTA CORRENTE 0014752-4 em nome de Tiago de Castro Menta, e assim dentro de pouco tempo irei adquirir uma nova e mais moderna webcam, dando um salto de qualidade técnica em meus vídeos pelo youtube que sempre serão gratuitos, abertos para todos que possuem tão apenas a vontade de aprender e debater a História.
Há vídeos meus que já foram visualizados por mais de 2 mil pessoas, e se numa hipótese otimista 1/4 destes alunos virtuais doarem R$ 1,00 para esta campanha que antes de tudo não é para o meu benefício mas para o benefício da aprendizagem de História, das Ciências Humanas, sem fronteiras, teremos com certa facilidade um montante suficiente para comprar novos equipamentos, investindo numa idéia que já deu certo: debater e aprender Filosofia com o Paulo Ghiraldelli, com a estrutura do CEFA, e debater e aprender História comigo Tiago Menta que hoje caminho solitário com minhas aulas-virtuais de História.
Assim, amigos e amigas, vamos melhorar a qualidade técnica de nossas vídeo-aulas de História, doando um único realzinho (R$ 1,00) para o amigo educador que será eternamente grato.

CAMPANHA - INVESTINDO NUMA HISTÓRIA SEM FRONTEIRAS
VALOR: R$ 1,00 REAL
BANCO BRADESCO
TIAGO DE CASTRO MENTA
AGÊNCIA 2416-3

CONTA CORRENTE 0014752-4

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

EDUCAÇÃO E CULTURA ATRAVÉS DA INTERNET - enviado.

Segue abaixo um pequeno artigo da prof. Márcia Cristina, graduada em Letras, enviado neste presente dia e que muito me felicita, dando-me uma sensação, muito boa, de "dever cumprido".
O título tem tudo a ver com a minha proposta de trabalho - educação e internet, em resumo de como podemos tornar a internet uma ferramenta verdadeiramente revolucionária quando se propõe a, junto ao entretenimento, educar e educar as massas, democratizando o conhecimento e promovendo um exercício dialético nunca antes imaginado.
Marcinha, como de hábito se apresenta, é uma destas pessoas com espírito aberto, ávida por conhecimento, por diálogo. E é com muito orgulho que recebo o seu artigo e não poderia ser diferente, reproduzo-o em meu blog.
Muito Obrigado prof. Márcia Cristina e conte sempre com o meu apoio, pessoal e intelectual.
Prof. Tiago Menta

EDUCAÇÃO E CULTURA ATRAVÉS DA INTERNET
Ao professor Tiago Menta

Até os anos de 1970 informação era sinônimo de biblioteca, onde os mais abastados podiam ter seus acervos ao acesso de suas mãos, contudo, as bibliotecas públicas regionais – nem sempre com um volume adequado de obras – localizavam-se em sua maioria num ponto de difícil acesso, relembrando o índice de analfabetismo que chegava a 32,9% da população brasileira. Não muito depois, na década de 90, com a globalização, houve a expansão dos meios de comunicação, a formação da era digital. No ano de 2000 o índice de analfabetismo caiu para 13,6% ao passo que o acesso a internet atingiu 35% da população brasileira, o que significa 64 milhões de habitantes que se conectaram a internet neste ano, e esse número só vem aumentando.
Surgiram bibliotecas, lojas virtuais e Universidades a distância via internet. Todavia em 2005 foi criado o Youtube, sendo considerado o invento do ano pela revista Time. O Youtube é um site na internet que permite que seus usuários carreguem e assistam vídeos, se tornando um importante aliado dos internautas, principalmente para a colaboração do bem comum. O professor Tiago de Castro Menta, historiador e filósofo, faz uso do Youtube para carregar suas vídeo-aulas na internet, sua didática muito contribui para os espectadores, que são desde alunos do ensino fundamental até universitários.
"A base da educação humanística é o amor. Uma pessoa que foi educada com amor abraçará a disposição de contribuir pelo bem dos cidadãos e da sociedade, deixando de lado a disputa que derruba e menospreza as outras pessoas." (365 Dias, p.147)
[1]
A verdade é que a educação tem sido subestimada pelo Estado, a quantidade tem sido valorizada acima da qualidade. Contudo a real preocupação dos docentes tem sido a formação dos jovens estudantes. A informação por si só tem sido insuficiente, é preciso algo mais, algo que lhes incite o desejo de aprender, algo que lhes toque a alma, a essência do ser, o porquê do conhecimento. Segundo Daisaku Ikeda, filósofo, humanista e pacifista, 'é preciso sabedoria para se administrar o conhecimento, sem a qual pode destruir ao invés de construir'. Essa sabedoria não é possível sem um mestre para intermediar a importância do conhecimento, e para proporcionar a informação como preparo para experiência. Além de estabelecer um ambiente criativo é igualmente importante cultivar o humanismo através de ações voluntárias.
“Uma capacidade fortalecida para educar, o entrelaçamento da educação em cada fio de nosso tecido social, a permeação de um senso de comprometimento e a responsabilidade de educar – são esses progressos concretos, e não simplesmente a política ou a economia que determinarão o futuro.” ( Proposta Educacional P. 74)
[2]
E é com garra e confiança em seu trabalho que o professor Tiago Menta se propõe a gravar suas maravilhosas aulas para oferecer o conhecimento gratuitamente para uma infinidade de pessoas que queiram acessá-las. Com diversos temas e recheadas de conteúdo suas aulas no Youtube são verdadeiros diálogos em que o espectador se sente numa conversa casual e ao mesmo tempo aprende com a dignidade de ser instruído por um mestre.
Portanto, é disso que a nação necessita, de exemplos como este, de um professor que se dedica a um ideal de educação, onde o conhecimento esteja ao acesso de todos.

Bibliografia

IKEDA, Daisaku. Proposta Educacional: algumas considerações sobre a educação do século XXI. São Paulo: Brasil Seikyo, 2006

IKEDA, Daisaku. 365 Dias: Frases para Mulheres. São Paulo: Brasil Seikyo, 2008

SILVA, José Fernando Modesto da Silva. Internet – Biblioteca – Comunidade Acadêmica: Conhecimentos, Usos e Impactos. Tese. São Paulo, 2001

Indice de Analfabetismo:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/tendencias_demograficas/tabela04.pdf

Acesso a Internet:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet/tabelas/tab1_19_3.pdf

Contagem da População:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/contagem2007/contagem_final/tabela1_1.pdf

O Invento do ano:
http://www.discoverybrasil.com/internet/interactivo.shtml
[1] IKEDA, Daisaku. 365 Dias: Frases para Mulheres. São Paulo: Brasil Seikyo, 2008
[2] IKEDA, Daisaku. Proposta Educacional: algumas considerações sobre a educação do século XXI. São Paulo: Brasil Seikyo, 2006.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A INTERNET E A ACADEMIA - ANTÍTESES?

O TRABALHO QUE REPERCUTE
"Bom dia Thiago sou professor de geografia, e escrevo esse e-mail para te parabenizar pelo trabalho e dizer que te admiro, e me espelho em você para minha carreira.
Cara, incrível como por meio de aulas no youtube pode esclarecer várias dúvidas e inseguranças que eu tinha, pois com certeza a geografia e a história/filosofia são áreas que se relacionam de uma certa forma uma com a outra... E ter um apoio de um colega de profissão, apenas por generosidade é muito bom.
Um forte abraço
E parabéns!
Amaro Viana"


Este email me foi enviado a alguns dias pelo colega geógrafo Amaro Viana e mostra a boa repercussão que meus vídeos de História vem alcançando nos últimos meses.
Isso só é possível não só porque do lado de cá está um profissional que ama o que faz, que gosta antes de tudo de "ser", no sentido ontológico mesmo, professor...
De nada adianta acumular conhecimento se este não é compartilhado com as pessoas, não para doutriná-las ou para apenas reproduzir o que se sabe, mas para manter o exercício dialético - que é a base da verdadeira educação e do educar-se. Assim, os vídeos, tanto os meus de cunho histórico como do amigo filósofo Paulo Ghiraldelli possuem a sua razão de ser em vocês, ai do outro lado do cpu, que buscam um algo mais da internet!
Tornamos, vídeo após vídeo, postagem após postagem, a internet brasileira um locus do livre pensar, da livre produção intelectual, longe do academicismo que algema as idéias, distancia as pessoas, e que ideologiza.
Não é sem razão que o Paulo diz que só consegue filosofar, no termo real do verbo (como ação), pois está distante da Universidade. Trabalhos como o dele, como o meu (com todas as suas limitações técnicas) não possuem espaço no ambiente oficial, acadêmico. A academia não prima pelo rigor, pelo contrário, ela prima pela reprodutibilidade, pela citação do momento, pela ideologia do momento, pelos textos do momento - isso em História é irritante, ainda mais, pois o historiador é preso a uma série de fontes, primárias ou secundárias, e é obrigado, dentro da academia, a ser uma espécie de "neopositivista".
Quer discutir algo, quer pensar, antes de tudo deve apontar: quais as suas fontes históricas? Qual a sua linha teórica? Que autores pensam como você? Ou seja, amarras, amarras, e muitas amarras.
A internet não comporta isso, ela é democrática por excelência. Tem pessoas, academicistas, acostumadas com os chicotes universitários, habituadas em manter distância do mundo real e das pessoas reais, que querem transformar qualquer debate virtual em debates acadêmicos...imaginem, uma vez um maluco desses me cobrava citações, fontes e tal, em um texto do blog! Oras, vão pentear macacos!
Eu e o Paulo, usando termo político da última campanha a prefeito de BH (do candidato do PMDB) "gostamos de gente", e é com "gente" que queremos ao mesmo tempo compartilhar nossas idéias, impressões, sem perder a abertura e a humildade em ouvir, aprender, a todo o momento. E assim, caros amigos vamos ambos dando, com muita satisfação, dando a cara para bater!
Obrigado a todos que acompanham o meu trabalho.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O RENASCIMENTO É HUMANISTA, NÃO ATEU

Renascer significa “nascer de novo”, “voltar à vida”. Ao longo dos séculos XIV, XV e XVI a dita cultura clássica, de gregos e romanos da Antiguidade, simplesmente renasceu, ressurgiu, primeiro sob as mãos dos artistas florentinos, depois romanos e por fim entre os europeus do norte.

Isto pode ser entendido como um amplo e impactante movimento que envolveu artistas plásticos, escultores, pintores, engenheiros, cientistas, escritores, filósofos e todo tipo de pessoa que a época demonstrava alguma independência intelectual, já que por mais de mil anos a Igreja romana impôs o seu pensamento e a sua ordem “na cabeça” dos povos da Europa.

A base, a fonte que inspirou o Renascimento, é o que conhecemos como “Humanismo”, que também pode ser entendido como “Pensamento Antropocêntrico” ou “Antropocentrismo” – que se apega a uma valorização do homem como ser, como sujeito que cria, que é dotado de imaginação, força, e de pensamento/racionalidade (uso da razão como meio de compreensão das coisas, ou racionalismo). Durante os quase mil anos medievais o que se viu fora exatamente o contrário de toda esta lógica, imperando a crença, a superstição, a ação divina ou os textos sagrados como únicos meios de interpretação do mundo e de todos os fenômenos naturais ou humanos (como a própria mortandade causada pela peste negra entre os séculos XIII-XIV, entendida por muitos como castigo divino, como uma praga bíblica). Esta idéia, puramente medieval, conhecemos como “Teocentrismo”, que já insinua Deus como “centro” de todas as coisas que ocorrem no Universo.

O Humanismo é uma forma evidente de se verificar o “retorno” ao mundo clássico, especialmente quando relembramos a Filosofia Grega e a Arquitetura Romana. Foram os gregos os primeiros a se distanciar dos deuses para a compreensão do mundo, dando força ao exercício da empiria (observação das coisas) e do uso da razão (do pensamento, da análise, que dá início ao que depois conheceremos como as mais diversas ciências). Basta relembrarmos Sócrates/Platão que já diziam estar “vivendo em sombras” aqueles que não faziam uso da “luz” da razão, e Aristóteles, o dito filósofo concreto, que impulsionou os mais diversos estudos desde linguagem (poética), biologia, física, política.

Uma obra que retrata bem este resgate dos valores clássicos é “A Escola de Atenas” (1510-1511) do italiano Rafael (1483-1520), um dos ícones do Renascimento italiano. Nesta obra o artista retrata todos os filósofos gregos da Antiguidade, em destaque ao centro para Platão (que aponta seu dedo para cima, meio que indicando sua preferência por uma filosofia metafísica) e ao seu lado Aristóteles (que aponta o seu contrário, com o dedo para baixo, no sentido de uma filosofia mais concreta, distanciada das coisas espirituais/metafísicas).

Outro indício da recuperação da cultura clássica são as várias obras renascentistas onde o tema retratado, esculpido, pintado, nos remete as mitologias grega e romana, como na obra do também italiano Botticelli (1445-1510) “O Nascimento da Vênus” (1485) que nos mostra a deusa do amor romana, Vênus (que também dá nome a planeta de nosso sistema solar) saindo de uma concha, como que florescendo para a vida.

Outro ponto importante: a “vida”. Nas obras renascentistas, em seus afrescos (pinturas feitas diretamente na parede úmida), esculturas, os elementos e personagens retratados estão sempre apresentando “movimento”, “vida”, devido ao desenvolvimento de apuradas técnicas como a perspectiva (a criação de um fundo, de uma profundidade nos quadros dando-nos mais dimensões de visibilidade) e o uso das sombras/luzes (claro e escuro), como no famoso “sorriso” da “Monalisa” (1503-1504) do genial Leonardo da Vinci (1452-1519).

É fundamental apontar que o Renascimento não é um movimento que “nega o Deus cristão”, que se apresenta como verdadeiramente ateu (ao contrário do Iluminismo do século XVIII), nada disso. O Renascimento quer, de certa forma, colocar a religião no seu devido lugar, ou seja, como crença, como devoção, não como poder, como único meio de compreensão do mundo – para compreender este mundo, dos homens e da natureza, o ser humano é capaz, já que tem imaginação, inteligência. O que prova isto é a maciça presença de obras renascentistas em igrejas romanas, italianas, como a Capela Sistina (1509-1512) pintada por Michelangelo (1475-1564) retratando passagens bíblicas ao longo de toda estrutura física da Igreja ou mesmo do mecenato (famílias, homens, que encomendavam e financiavam as obras de vários artistas renascentistas) que muitas vezes tinha no Papa como maior dos mecenas.

Em uma de suas marcantes passagens, Michelangelo retrata a “Criação de Adão”, afresco que mostra o ser humano, representando como Adão, esticando suas mãos de encontro ao Criador, Deus representado em forma humana (com longos cabelos e barba branca) em ato de igualdade. Nem o Homem é menor que Deus, nem maior, e assim por diante. Deus e Homem são tornados iguais, em força e poder. Ambos possuem aspecto humano, e mesmo habitando planos diferentes, estão de mãos dadas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

HENRIQUE VIII - O Ceifador de Rainhas e o Criador de uma nova Igreja

Foi lançado em dvd o filme "A Outra" (The Other Boleyn Girl) que tem como fundo "histórico" as intrigas que envolveram a vida do rei inglês Henrique Tudor (Henrique VIII) e duas concubinas: Ana e Maria (Ana que depois tornou-se rainha da Inglaterra por pouco tempo).

HENRIQUE TUDOR E CATARINA DE ARAGÃO
Henrique VIII sempre teve uma vida pessoal atribulada, marcada por intrigas políticas, amorosas. Sua primeira esposa, a rainha Catarina de Aragão (espanhola) foi durante algum tempo esposa do irmão mais velho de Henrique, Artur, que morreu inesperadamente. Para não criar dissidências políticas com os espanhóis arranjou-se que Catarina casasse com Henrique, o novo sucessor real e alguns anos mais novo que Catarina.
Havia na Inglaterra uma lei de sucessão que permitia a uma mulher governar o reino, porém o povo inglês via nisso, mergulhado em histórico machismo, um sinal de ruína e decadência da nação. E assim começava a necessidade de Henrique VIII ter, e logo, um filho para sucedê-lo.
Catarina engravidou 7 vezes, e só um de seus filhos, uma mulher (Mary), sobreviveu. Estava colocado um grande problema para Henrique, com Catarina não havia mais possibilidades de se ter um filho como sucessor de seu trono! E agora?

HENRIQUE TUDOR E AS IRMÃS BOLENA
Henrique não tinha outro caminho senão começar a procurar outras mulheres, pois o povo ansiava por um sucessor homem, um "varão". Com Catarina isso já não era mais possível, e assim apareceram na vida do monarca as irmãs Bolena: Maria e Ana.
Com Maria Henrique chegou a ter um filho homem, mas logo acabara deixando-se levar pelo magnetismo de Ana, que acabou assumindo a condição de "amante real". Mas como casar-se com Ana? Como se livrar da rainha Catarina?

HENRIQUE TUDOR E A QUESTÃO REAL



O impasse político criado pela necessidade do monarca de se separar da rainha Catarina e de casar-se com Ana Bolena é conhecida como a "questão real". Henrique encaminhou a difícil missão de intervir junto a Igreja romana seus mais próximos ministros e sacerdotes, porém as respostas vindas de Roma, do Papa Clemente VII, não lhe eram favoráveis.
Henrique VIII então decidira o impasse internamente, entre seus fiéis ministros e juízes, anulando assim o casamento com Catarina sem a permissão papal. E no mesmo ano, em 1533, casou-se com Ana Bolena, tornada a nova rainha da Inglaterra.


HENRIQUE TUDOR E A IGREJA ANGLICANA (CHURCH OF ENGLAND)
A resposta papal veio com a excomunhão (expulsão da comunidade religiosa), declarada por Clemente VII por entender que a anulação do casamento com Catarina de Aragão e o casamento do rei com Ana Bolena eram afrontas a Deus e a religião cristã romana.
Poucos sabem, mas Henrique VIII era um fervoroso cristão, e até combateu com intensidade a revolução religiosa ocorrida em terras alemãs quando do surgimento do Protestantismo com Martinho Lutero. No entanto, com a excomunhão feita por Clemente VII, Henrique retira a Inglaterra do seio da Roma Cristã, criando uma nova Igreja Cristã - o Anglicanismo ou Igreja Anglicana (Church of England/Igreja da Inglaterra), onde seria o rei inglês o novo líder religioso e não mais o Papa católico.
A briga entre anglicanismo e católicos se acirrou com o passar dos anos, chegando ao ponto do rei autorizar em 1538 a destruição de santuários de santos católicos e o fechamento de monastérios (que tiveram seus bens usurpados pelo Estado inglês); para piorar o grande filósofo Thomas More (que escreveu A Utopia), antes fiel aliado a Henrique, se negou a aceitar a nova Igreja e acabara sendo executado por traição em 1534.

HENRIQUE TUDOR EM BUSCA DE UMA NOVA ESPOSA
O casamento com Ana Bolena não ia nada bem, ela lhe deu uma filha, Elizabeth, e nada de um filho homem como ela tanto havia prometido dar ao monarca.
A obsessão por um filho homem, compreendida como questão de Estado, foi levando Ana ao desespero, cada vez mais agravado pela irritação e desconfiança do rei Henrique.
E assim, como fizera com Catarina de Aragão, Henrique já estava em busca de uma nova mulher/rainha, uma que finalmente lhe daria um filho homem legítimo (pois Maria Bolena não se tornou rainha, talvez o erro maior de Henrique VIII) - surge Joana Seymour!
Mas e agora, como se livrar novamente de uma rainha indesejável? Anular o casamento como antes, não seria preciso - bastava usar o descontentamento do povo com Ana e livrar-se dela.
Ana nunca tivera aceitação como rainha, ficando sempre a imagem da mulher que enfeitiçou o rei a ponto dele se separar da rainha Catarina e da própria igreja romana.
E assim era só plantar denúncias, mesmo falsas, sobre Ana e executá-la, abrindo espaço para a nova rainha Joana Seymour.
E as acusações vieram, até de membros de sua família: Ana era então acusada de bruxaria, adultério, incesto, conspiração e traição - o destino era certo, a decapitação! E isso ocorrera em 1536, sendo também executados o irmão e o pai de Ana, ambos por conspiração e traição.

HENRIQUE TUDOR CONSEGUE O QUE QUERIA: NASCE EDUARD
No mesmo ano da execução da rainha Ana, Henrique VIII casa-se com Joana Seymour e torna-a nova rainha da Inglaterra.
Desta relação nasceu o futuro rei Eduard I (1537), agora sim um filho legítimo. Porém a felicidade de Henrique não fora completa já que após o parto Joana acabou morrendo, deixando o monarca na viúvez.
Em 1540 Henrique se casa novamente, com Ana de Cleves. No mesmo ano anula este casamento, com o argumento de não tê-lo sacramentado com uma relação sexual (na verdade Henrique não gostava de Ana, e esta não lhe despertava o menor desejo, sendo o casamento uma questão política).

HENRIQUE TUDOR CORTA MAIS UMA CABEÇA REAL
Henrique logo arruma nova esposa: Catarina Howard, prima de Ana Bolena. E como Ana, Catarinha tivera o mesmo e triste fim - a execução! Howard após alguns anos de convívio com Henrique acabara se envolvendo em escândalos, sendo assim acusada e executada por adultério.
Como no caso de Ana Bolena, os historiadores entendem que a execução de Catarina Howard fora uma artimanha jurídica, criada para satisfazer as vontades de um monarca marcado pela tirania.

HENRIQUE TUDOR E SUA ÚLTIMA MULHER
Em 1543 Henrique se casa, pela última vez, com Catarina Parr, que conseguiu reconciliar Henrique com suas filhas Mary e Elizabeth, filhas de Catarina de Aragão e Ana Bolena - agora recolocadas na linha sucessória após Eduard, filho de Joana Seymour e que será o sucessor de Henrique VIII em 1547 como Eduard I.