quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A ARENA ROMANA MIDIÁTICA


Nas últimas semanas temos assistido a uma verdadeira batalha, só não se sabe ao certo a sua natureza: ideológica, econômica (ambas as coisas)? O certo é que as emissoras de televisão Rede Record (poder da fé evangélica/Igreja Universal do Reino de Deus/teologia da prosperidade) e Rede Globo (verdadeiro monopólio das telecomunicações brasileira/maior penetração entre os telespectadores brasileiros/símbolo da cultura de massas/braço forte das elites nacionais) estão, declaradamente, se pegando para valer em uma luta daquelas que mais parece uma arena romana: ou seja, desta batalha só uma sairá viva, e a luta obviamente só termina quando uma das combatentes cair morta.

Sabemos que esta briga não é nova, ela agora só parece ganhar novos contornos, mais escarnecidos. A justiça brasileira se insere no caso, mas demonstra não ter força suficiente para lidar com isso e com os interesses que fazem parte do caso. Assim, as duas redes ficam se acusando, alfinetando, mutuamente, via programação semanal (de preferência em seus telejornais ou programas de entretenimento) – pois elas sabem que a luta, a luta real, a arena romana real, se realiza nas mensagens que passam pelos milhões de tubos de imagem deste país, e não nos tribunais frios e distantes da justiça nacional.

Vamos às acusações - farei aqui o papel de advogado do diabo, ou melhor, advogado dos diabos (que missão infernal ein!):

REDE GLOBO
ARGUMENTOS
A rede Record é uma espécie de fachada para que a Igreja Universal de certa forma “lave” o dinheiro do dízimo de milhares de fiéis da mesma igreja.
A rede Record falta com a ética quando usa, indevidamente, o dinheiro de fiéis em investimentos na emissora, e não em benefício dos mesmos fiéis ou da referida igreja e seus programas sociais.
A rede Record é perigosa, pois mistura política, jornalismo e religião. A mesma tenciona transformar-se num projeto de fortalecimento, ideológico e econômico, da Igreja Universal do Reino de Deus, acelerando o processo de protestantização/evangelização do Brasil – através da ponte entre a miséria do povo e a chamada teologia da prosperidade.

REDE RECORD
ARGUMENTOS
A rede Globo começou esta guerra midiática, pois teme perder espaço para a rede Record, que está em ascensão. Um dos fatos que demonstra isso é além do crescimento da audiência da Record, a compra por esta rede de eventos internacionais do porte das Olimpíadas de Londres-2012 (transmissão exclusiva, em televisão aberta, da Record).
A rede Globo é um braço histórico das elites brasileiras, demonstrado muito bem no documentário britânico “Muito além do cidadão Kane”, em que é apresentada a ascensão da emissora carioca em conluio com estranhos processos durante o governo militar brasileiro (como a existência de dinheiro estrangeiro para a criação da emissora – grupo Time Life/Warner) e também com interesses burgueses (como a não cobertura do movimento pelas Diretas Já, e a interferência direta na disputa eleitoral em 1989, quando Collor vencera Lula).
A rede Globo exerce verdadeiro monopólio nas telecomunicações nacionais. Em síntese é uma emissora criada em meio a um regime político de exceção, e que possui como essência uma atitude antidemocrática.
A rede Globo serve aos interesses do catolicismo.

MEU JUÍZO
“Observando as acusações de ambas as emissoras, eu, Tiago Menta, historiador e filósofo, declaro ambas as emissoras culpadas. Assim estão as emissoras Record e Globo de televisão condenadas a sumir de nossa grade televisiva.
As duas cometem verdadeiro crime contra os interesses dos cidadãos brasileiros, apresentando-se como ícones da desinformação, alienação, deseducação.
Portanto, por todos os desserviços prestados a nação brasileira condeno-as a extinção sumária.
E por favor, guardas, prendam nas masmorras os senhores Roberto Marinho e Edir Macedo.”
Pá! (bati o meu martelo, com força, como orientaria Nietzsche).

domingo, 9 de agosto de 2009

EU SOU UMA AVE DE RAPINA


No meu trabalho como educador já apresentei aos meus alunos fatos relacionados a história da Cristandade, do Judaísmo, do Islã, para ficarmos nas três maiores religiões monoteístas deste planeta.
Já pelas vias multimídia, no canal do youtube (http://www.youtube.com/tiagomenta), elaborei uma série de vídeos sobre o Islã e a vida do profeta Muhammad, e também de temáticas envolvendo a Cristandade (Cultura Medieval, Escolástica, História Romana, Reforma Protestante, e agora mais recentemente a Inquisição Católica).

Alguns leitores ou alunos virtuais, ainda não entenderam o sentido, acadêmico, de se discutir o tema "Religião". E me desculpe a franqueza, mas por pura ignorância.
Fé, crença, não são elementos que tenho como intenção tratar aqui, ou mesmo em sala de aula, visto que como educador sei que é positivo e salutar respeitar as opções dos outros (desde que este não se vire para você de maneira a condená-lo aos infernos, como muitos já me condenaram, em ato de intolerância e insignificância intelectual ou mesmo mental). Então de que estou falando? Do simples, da religião enquanto cultura, política, visão de mundo (Weltanschauung) e principalmente enquanto corpo institucional (com regras, normas de conduta/ética, hierarquia, doutrinas, organização, historicidade).

Alguns poucos, cegos, já me colocaram a burca na cabeça e me rotulam como muçulmano, outros apontam o dedo para mim e já me vislumbram como um apaixonado pastor com uma bíblia protestante sob os braços, e há os que entendem que seja eu um católico mais crítico, mais próximo de mentes como a de Leonardo Boff (cultuando um retorno ao Cristianismo Primitivo, de opção pelos pobres do mundo). Não, não, não, todos errados.

O amigo professor aqui, a duras penas, como sempre é, é ateu.
O Deus Cristão, Jeová, apresentado para mim enquanto criança, e não só apresentado mas imposto pela pressão familiar (maquiada de socialização) não me conquistou, e com o tempo foi se mostrando inviável enquanto entidade.
O islã, com sua riqueza nascente, em meio a uma Europa capenga ao longo dos séculos medievais, não apresenta algo muito diferente em seu Alá, e também não conquistara o amigo aqui.
O judaísmo e sua histórica arrogância, substancializada no Estado de Israel (um país artificial no seio do Oriente Médio e do Mundo Árabe), não me atraiu também - mesmo com todo o esforço empreendido em Hollywood para convencer-me do contrário, usando como arma mortal a piedade universal diante dos absurdos e grotescos eventos cometidos durante o Holocausto nazi-fascista.

Assim, só me resta a solidão, e o ateísmo é um ato de coragem também pela solidão que evoca, que acaba por nos punir.
Em países como os Estados Unidos somos considerados verdadeiras ameaças e a população americana diz em pesquisas que não elegeria, de jeito nenhum, um ateu no comando da nação.
Contudo, esta solidão não é uma solidão comum, triste. É uma solidão simples, como uma mão solitária que se levanta em meio a uma multidão. Uma mão solitária que se recusa a aceitar tudo pela via da "pronta entrega" metafísica. Uma mão que não negocia com entidades, que deste mundo nada espera senão vivê-lo, em estado de gozo quase diário.

Não faço o tipo Dawkins, de ateísta panfletário, de ateísta show-man, mesmo tendo que reconhecer o brilhante trabalho do biólogo britânico. Eu sou o ateísta silencioso, que abre suas asas, como a coruja filosófica de Palas Atenas, ao cair do sol (como dizia Hegel). Em alguns momentos, após o silêncio do dia, eu alço voo. E é preciso coragem, antes de tudo, para sair da segurança do chão, da galinha boffiniana, e sair por ai como uma verdadeira e feroz ave de rapina. Eu sou Tiago Menta, eu sou uma ave de rapina.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

FELIPE AQUINO - A ANTA QUE FALA E PREGA!



Em meus últimos vídeos, tratando das violências cometidas pelo Catolicismo através de sua Inquisição, deixei de maneira clara, sem agir segundo o "politicamente correto" (que configura o fim de qualquer intelectual que se considere livre ou independente) dura crítica ao dr. em engenharia Felipe Aquino, que, endossando o dito em vídeo, realiza grande desserviço a tudo a que considero como ciências humanas ou mesmo humanismo, ditando dogmatismos, conservadorismos, reacionarismos, moralismos, e tudo que de pior, institucionalizante, pode ser apreendido e encontrado em uma religião - no caso o Catolicismo, vide suas participações televisivas em uma das redes pertencente a Igreja Romana.

Felipe Aquino em seus livros, e já tive o desprazer de ler alguns capítulos de suas obras (sendo-me impossível ir até o final, tamanhas bobagens o autor escreve, e confesso ter lido mais por senso de humor do que propriamente por considerar uma fonte de pesquisa útil) afirma coisas do tipo:

- a música rock'roll é criação demoníaca.
- a Igreja Católica é a única legítima, criada pelo próprio e verdadeiro Deus. Todas as outras crenças ou mesmo formas de cristianismo são falsas, são inválidas, desvios.
- o preservativo não deve ser usado, sendo considerado seu uso pecado. E sexo é somente para a procriação.
- o homossexualismo é um ato pecaminoso, condenável.
- a Inquisição e outros erros "da Santa Igreja" são erros humanos, dos homens em seu contexto histórico, e não da Igreja, a instituição Igreja, vista como infalível e como representante de Deus entre nós.
- aquele que pratica o sexo anal se reduz a condição de animal, assim como fazer sexo com a mulher "de quatro" é ato pecaminoso, proibitivo, pois reduziria o homem a condiçao animalesca.

Pois é, percebem as bobagens, idiotices, que este doutor, vai saber como, em engenharia (porque se fosse filósofo, historiador, sociologo, psicologo, antropologo deveria levar uns tapas e ser obrigado a voltar para a graduação) diz por ai, em rede nacional, dando uma de "professor", de homem de "ciências", quando na verdade aquilo ali é a faceta mais perversa e conservadora que ainda persiste em uma Igreja que já carrega mais de dois mil anos de sangue, hipocrisia, atraso intelectual, e só se mantém, hoje mesmo a duras penas, porque o ser humano ainda prefere viver envolto no dito "mistério", espera encontrar consolo, mesmo na falsidade, em um devir de conforto junto a uma idealização infundada e inebriante.

E claro, não poderia terminar este texto colocando os "pingos nos is"...
- Use camisinha, sempre. Cuide de sua saúde e de seu parceiro.
- Sexo é bom, sempre. Pratique-o, aproveite o prazer com intensidade, mas com responsabilidade.
- O rock'roll, assim como toda forma de música, é expressão cultural humana e deve ser respeitada como tal.
- O Catolicismo (não confundam catolicismo com cristianismo, o último diz respeito a fé que o indivíduo tem) é uma instituição religiosa, e como instituição social possui regras, normas, ideologia, política, hierarquia, e como instituição ela foi criada (pelo imperador romano Constantino I) e é conduzida por seres humanos (ontem, hoje e amanhã). Seus erros, seja qual for o contexto histórico, são seus próprios erros, não havendo infalibilidade nem de seus líderes nem de seu corpo eclesiástico.
- A Inquisição Católica é ato de terror, e como tal não há perdão que apague a imundície que a criara e conduzira por séculos. É ato de intolerância e desrespeito a vida humana, é o mais puro ato de desumanismo dentro de uma instituição que tenta se legitimar como humanista - reforçando o caráter hipócrita da mesma.
- O homossexualismo não é condenável, nem digno de aplausos, o homossexualismo é uma condição humana, ligada a sexualidade (de forma complexa, psicológica e até genética) de um homem ou de uma mulher. Ninguém é pior ou melhor que ninguém por ser homossexual.
- O sexo anal, assim como todas as formas de prazer, são válidas enquanto mecanismo de obtenção de prazer corporal. Ter prazer não pode ser condenável, visto ser fruto de uma complexa relação entre o corpo e a mente, em uma dialética fisiológica que ultrapassa e contradiz qualquer moralização sobre a biologia humana.
- E por fim, o ato sexual com a mulher "de quatro" nada mais é do que mais um mecanismo de obtenção de prazer, natural e humano.

Em suma, a verdadeira animalidade não está no ato sexual entre um homem e uma mulher, mas sim na relação de submissão, voluntária, de um ser humano perante uma instituição, aceitando e reproduzindo dogmatismos. Dai sim, justifica-se a comparação, ou mesmo a metamorfose, de Felipe Aquino, e seus fiéis seguidores, em verdadeiras ANTAS.

domingo, 26 de julho de 2009

DELIVERY BABIES!


Estamos em 2039, PT e PSDB já haviam se fundido em um único partido (o PTO - Partido do Tucano Operário), a família Sarney ainda mandava no estado do Maranhão, a Copa do Mundo de 2038 (realizada entre dois países - Venezuela e Equador) fora vencida pela seleção holandesa pela primeira vez, e aqui em Belo Horizonte, em pleno centro da cidade um casal de jovens se dirige a um de nossos renomados hospitais (não ligados ao Sus, que ainda permanece caótico, onde para a realização de uma cirurgia cardíaca a espera é de quase 1 ano). Após a assinatura de uma extensa papelada burocrática, se dirigem ao consultório do Dr. Augusto Continha, especializado em reprodução humana (após 10 anos de bolsa de estudos em universidade federal).

Boa tarde, o que traz o jovem casal ao meu consultório?
Bom, vimos na televisão que o doutor é um dos poucos especialistas em neo-reprodução aqui em BH, e sabe como é, ficamos animados e aqui estamos..

Ok, então o casal quer ter filhos, é isso.
Sim, claro, este sempre foi o sonho do Armandinho.
Claro né amor (se beijam).

Sabem como é o procedimento?
Mais ou menos, dá para o doutor deixar isso mais claro pra gente?

Pois bem. Precisamos primeiro recolher o material. Quem vai doar um fio de cabelo do escroto?
Ah, pode ser o Armandinho mesmo.

Então, sr. Armando, pode se dirigir a saleta ao lado e fazer a coleta do material. E lembre-se, recolha os fios do escroto, mas antes lave o local com água e sabão.

Armandinho volta e entrega o potinho, lacrado, para o dr. Augusto Continha.
E agora dr?

Então, a previsão de entrega é de duas semanas. Vocês podem vir pegar a criança de vocês aqui mesmo no hospital, no setor de entregas. Contudo, pagando um poquinho mais podemos fazer a entrega a domicílio. De brinde levam um bercinho e um travesseiro.

Agora, vamos a outros detalhes. Coletado o material, quero saber do casal quais são as escolhas de padrão genético: masculino ou feminino?
Bom, doutor, seria ótimo uma menininha em casa, afinal somos dois papais...
Ok, feminino (iniciando preenchimento de uma ficha).

Quer que a menina seja como? Tipo físico?
Como assim dr?
A menina terá porte atlético, terá obesidade, será magra, alta ou baixa, coisas assim. E claro, a etnia da criança também é fundamental.
Bom, eu e Armandinho somos branquinhos, então a menina pode ser branquinha, tipo a Angélica, lembra como era a Angélica né doutor?
Sim, sim. Caucasiana 100% (escreve).

E o tipo físico?
Ué dr, malhadinha. Bumbum rosado, olhinhos claros, boca carnudinha. Peitinhos do tipo pera.

Ótimo, ótimo. E a altura?
Bom, queremos que ela siga a profissão do Armandinho, que é de ser modelo. Então deve ser alta, tipo quase 1,90 (em 2039 os seres humanos tem em média uma altura bem maior, devido a uma alimentação artificializada, rica em genes de desenvolvimento).

Ok, e a inteligência? Temos a linguística, espacial, física, psicológica, emocional, matemático-lógica. Que vai ser? Pela profissão que estão querendo para a criança acho melhor acrescentarmos a inteligência espacial, sabem como é andar em uma passarela.
Isso doutor, que ótimo.

Então, repetindo o pedido do casal: Feminino, alta, caucasiana, inteligência espacial e corpo atlético. Confere?
Sim, sim.

Entrega em duas semanas, aqui pessoalmente ou domicílio?
Em domicílio custa quanto a mais?
Uns R$ 150,00 a mais, em média, depende de onde moram.
Ótimo, ótimo, então achamos que vale a pena.

Muito obrigado, agora se dirijam ao setor de vendas e façam o pagamento.

Armandinho e Robertinho (vulgo Melissa para os íntimos da vida noturna) vão ao guiche, sendo atendidos por uma senhora de idade.

Boa tarde, já consultaram o doutor. Estão com a ficha?
Entregam o papel com todas as informações necessárias para a encomenda mais importante de suas vidas, desde que se conheceram em uma casa noturna a uns cinco anos e começaram a dividir o mesmo apartamento meses depois, dando início a uma vida em comum, mesmo com as famílias de ambos criticando a condição de homossexualidade assumida pelos dois.

Vão pagar com o quê? Dinheiro, cheque, cartão. Se for cartão dividimos em até dez vezes sem juros.
Cartão né Armandinho? Pega ai na sua bolsa.
Pronto, minha senhora, está aqui.

Aqui, não quero me intrometer na vida de vocês, mas é o primeiro filho de vocês?
Sim, sim..

Sabe, tenho 68 anos, solteirona, e meu sonho sempre foi ter um filho. Vocês dois acham que devo fazer como vocês?
Claro, claro. É caro, mas ter um filho é tudo na vida.

Meu medo é que tenho alguns problemas de saúde, se morrer, a criança ficará praticamente sem ninguém.
Ih boba. Morrer hoje em dia é coisa de gente pobre, qual o seu problema?
Coração, as artérias estão cheias de placas de gordura, sabem como é comer junkfood quase todo dia, mas não resisto.

Ah, preocupa não senhora. Aqui, conhecemos um lugar aqui em BH que por três mil reais eles trocam o seu coração por um novo, esse negócio de morrer já caiu de moda faz tempo. O Armandinho aqui adora uísque, cachaça, sabe como é vida de quem curte a noite, vira e mexe aparece uma cirrose e ai é só trocar o fígado estragado por um novo.
Não brinca meninos? É mesmo...

Olha aqui minha tia, pega um papel que anotamos o endereço. Ai você renova as peças e depois mandar encomendar um garotinho só pra você.
Muito obrigada...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O FIM DO SEXO E DA MORTE



Em "A Ilusão Vital", obra que reúne uma diversidade de textos do filósofo francês Jean Baudrillard, é apresentada uma interessante análise a respeito da sexualidade e da morte, enquanto fenômenos que vem sendo eliminados, pouco a pouco, pelos seres humanos neste mundo pós-moderno em que estamos vivendo.

Mas, o amigo leitor pode se perguntar, com estranhamento, como eliminar da vida humana a morte e o sexo? Como isso é possível?

Em primeiro lugar é necessário definir, ou melhor, redefinir o que quero dizer com "sexo" ou "sexualidade" nesta discussão baudrillariana - mecanismo biológico de reprodução de nossa espécie, e não como atividade de prazer, mas como fisiologia humana. O sexo fisiológico, o sexo que dá continuidade a vida humana, este sim, está sendo eliminado pela humanidade ao longo das últimas décadas. Pensemos: é necessário a relação sexual entre um homem e uma mulher para a concepção de uma vida? Nem sempre. Hoje a ciência desenvolve uma série de técnicas, como a reprodução in vitro, que dispensam a atividade sexual entre duas pessoas como meio de se conceber uma vida. Exemplo disso são casais antes impossibilitados pela natureza conseguirem hoje conceber um filho, casais de lésbicas com filhos, mulheres solteiras com filhos, tudo fruto da técnica, da tecnologia, e não da carne, da relação, da interconexao de fluidos corporéos. Assim, vivemos um mundo onde é possível ser pai, sem ter a mãe, é possível ser mãe, sem ter pai. Não há genitores, mas genitor, solitário, individualizado.

A mesma técnica que elimina o sexo fisiológico também vem promovendo o fim do maior dos temores humanos: a morte. Mas, como?

A biotecnologia vem avançando, a passos largos, acima de toda discussão ética, e já produz, ou melhor, reproduz espécies - a clonagem genética, gerando cópias de um único ser. É possível hoje, em países como os Estados Unidos, pagar para clonar o seu gato ou cachorro, que por infelicidade acabara morrendo. Em breve a clonagem humana não será um tabu, mas uma realidade. Isso sem falar nas pesquisas com células tronco, que vão prolongar a vida humana de uma maneira nunca antes vista, pois toda célula poderá ser substituída por uma célula nova, saudável, como se fossemos máquinas aptas para termos nossos órgãos tratados como peças, passíveis de troca e não mais de conserto.

E quais as consequências de uma humanidade que já não se reproduz pelas vias naturais e que já não mais irá morrer, seja por clonagem ou por trocas de células (peças) danificadas por saudáveis? Baudrillard aponta para uma sociedade de intensa homogeneização, racionalização ao extremo, aonde a nossa condição humana irá se esvanecer pouco a pouco, a ponto dos seres humanos tornarem-se não mais humanos, mas deuses. Contudo, é difícil imaginar as implicações éticas, sociais e políticas em um mundo habitado não por homens, mas por deuses. Tornaremos este planeta a substancialização do monte Olimpo ou transformaremos este mesmo planeta em um mundo habitado por máquinas-humanas, estaremos um passo adiante na evolução de nossa espécie ou estaremos dando passo atrás no mecanismo evolutivo? Serão respostas, no mínimo, intrigantes e não menos perturbadoras.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

ROBERTO CARLOS: GÊNIO POÉTICO OU PERU DE NATAL GLOBAL?




Cachoeiro do Itapemirim-ES, 1959, surgia um dos maiores ídolos da música brasileira: Roberto Carlos.Agora são 50 anos de carreira completos, e então, como analisar o cantor, compositor, após décadas de sucessos, mistérios, perdas pessoais (esposas), problemas psicológicos (como o toque)? Como entender Roberto Carlos, vulgo "rei" da música nacional, uma espécie de Elvis tupiniquim? Um revolucionário ou um contra-revolucionário? Um piegas ou um genuíno poeta?

Roberto apareceu no cenário musical brasileiro em meio a onda rock'roll, que já se anunciava na América com nomes como Bill Halley, Chuck Berry, Little Richards, Jerry Lee Lewis, eespecialmente o ícone Elvis Presley. No início Roberto e o próprio movimento jovem que se organizou na televisão brasileira em torno dele (Jovem Guarda) eram uma tentativa pura e simples de reproduzir aqui o que já se fazia na América ou mesmo na Europa (inclusive muitas músicas da Jovem Guarda possuem origem em músicas italianas, como Era um garoto que como eu amava os Beattles e os Rolling Stones).

Mas como toda onda passa, esta passou, a Jovem Guarda ruiu, e vieram os anos setenta com seu psicodelismo, seu "paz e amor", a era disco, e o próprio Roberto tentou reproduzir isso no próprio visual, que depois virou marca registrada: os longos cabelos, em substituição ao cabelinho lambuzado de gel e caidinho da época da Jovem Guarda. Vieram composições mais maduras, mesmo quando o intento era o romance - "Amigo", "Jesus Cristo", "Cama e Mesa".

Roberto, avançando nos anos 80, começa a entrar em parafuso, musicalmente e pessoalmente. Vem composições ridículas como as que ele "homenageava" caminhoneiros, mulheres gordas, mulheres baixinhas. Na vida pessoal ele já demonstra um espiritualismo beirando o dogmatismo, e não é a toa que o cantor faz apresentações como na vinda de João Paulo II ao Brasil (ou em composições como Nossa Senhora). Ao mesmo tempo já começa a manifestar espasmos de superstição, maneirismos - fruto da doença psicológica do toque (usar branco nas apresentações, ter pavor a cor marrom).
Para agravar a situação Roberto Carlos sofre constantes perdas pessoais, culminando com a morte da esposa Maria Rita após anos lutando contra um câncer.

Em termos gerais Roberto Carlos pode e deve ser entendido como um grande cantor brasileiro, um grande compositor (na dupla que formou com o carioca Erasmo Carlos) e um poeta. Não foi um revolucionário, não representou o novo em nosso país, pelo contrário, representava a reprodução de modismos que eram hegemônicos mundo afora, inclusive muito se discute o seu silêncio musical durante o regime militar (1964-1985): afinal de contas, era difícil escrever "eu te amo baby" em meio a um país onde muitos jovens eram mortos, torturados, reprimidos, numa ordem política e social sufocante. Outro fator que aponta Roberto Carlos na direção da contra-revolução é a exclusividade global, que seria como assinar o pacto com o diabo (que responde pelo nome de Roberto Marinho e as Organizações Globo). Roberto Carlos se torna produto global, se torna o peru de Natal de todo o brasileiro médio (os shows de fim de ano), e isso chega a tal ponto que o dvd produzido pela MTV, chamado unpluged (ou show acústico) é vendido na praça mas proibido de ser veiculado na própria emissora que o produzira. E finalizando, a ridícula postura do cantor diante do magnífico trabalho do colega historiador Paulo César de Araújo "Roberto Carlos em Detalhes" que proibira o mesmo de vender/divulgar a obra biográfica.

Enfim, nestes 50 anos de carreira eu posso dizer de Roberto Carlos o seguinte: nota 10 como cantor e compositor, nota 0 como cidadão.

domingo, 14 de junho de 2009

ODE A JIM MORRISON


Ontem a noite assisti (Telecine Cult), novamente, e sem nunca cansar, ao clássico de Oliver Stone "The Doors" que nos remete a biografia do gênio poético-musical Jim Morrison, protagonista e vocalista da banda The Doors (As Portas, referência a obra As Portas da Percepção, de Huxley).
Morrison, falecido em Paris no ano de 1971 (vitimado por um ataque cardíaco aos 27 anos de idade - provocado por uma vida intensa, ávida, de excessos - álcool, viagens de mescalina e ácido, cocaína, nicotina, prazeres sexuais e até bruxaria ou ocultismo) é daqueles ícones criados nos loucos (e sempre criativos) anos sessenta, dentro da chamada contracultura (ele mesmo dizia fazer uma música de ruptura).
Repasso aos leitores e amigos a tradução do que considero a sua obra-prima "The End" ou "O Fim", utilizada inclusive no cinema como parte da trilha sonora de Apocalypse Now (filme sobre a guerra do Vietnã, estrelado por Marlon Brando):
"(...) my only friend - the end (...)" Inesquecível!

Este é o fim Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos...de novo
Voce pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente...de alguma...mão de estranho
Numa terra desesperada?

Perdido numa romana...selva de dor
E todas as crianças estão loucas
Todas as crianças estão loucas
Esperando a chuva de verão, sim
Tem perigo no extremo da cidade
Passeie pela estrada do rei, bem
Cenas estranhas dentro da mina de ouro
Passeie pela estrada do este, bem
Passeie pela serpente, passeie pela serpente
Para o lago, o antigo lago, bem
A serpente é longa, sete milhas (11 km)
Passeie pela serpente… Ela é velha e sua pele é gelada
O oeste é o melhor
O oeste é o melhor
Vá lá, e nós faremos o resto
O ônibus azul está nos chamando
O ônibus azul está nos chamando
Motorista, aonde está nos levando?

O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas
Ele tirou uma foto da antiga galeria
E andou pelo corredor
Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e...então ele
Pagou a visita a seu irmão, e então ele
Ele andou pelo corredor, e
E ele veio até a porta...e ele olhou para dentro
"Pai?", "Sim filho?", "Eu quero te matar."
"Mãe...Eu quero...te foder."

Venha bem, tente conosco (3x)
E me encontre atrás do ônibus azul
Fazendo um foguete azul, No ônibus azul
Fazendo um rock triste, vamos, sim
Matar, matar, matar, matar, matar, matar

Este é o fim, belo amigo
Este é o fim, meu único amigo, o fim
Dói te libertar
Mas você nunca vai me seguir
O fim da gargalhada e das mentiras suaves
O fim das noites que tentávamos morrer
Este é o fim